Projetos de Restauração

Ícone de São Mateus em têmpera sobre madeira antes do restauro, com as lacunas na folha de ouro verdadeiro assinaladas em vermelho
Ícone de São Mateus: detalhe do estado de conservação antes do restauro de arte sacra
Verso do Ícone de São Mateus com as travas originais atacadas por insetos xilófagos
Substituição das travas do ícone por pinho de Riga, mesma madeira do suporte original
Detalhe das perdas na camada pictórica do Ícone de São Mateus antes da reintegração
Folha de ouro verdadeiro oxidada no fundo do Ícone de São Mateus antes da limpeza
Reintegração da folha de ouro verdadeiro no Ícone de São Mateus
Reintegração cromática da camada pictórica em têmpera do Ícone de São Mateus
Restauro da moldura do Ícone de São Mateus
Ícone de São Mateus após o restauro de arte sacra, com ouro e camada pictórica reintegrados

Restauro de Ícone: São Mateus em têmpera sobre madeira com ouro verdadeiro

Este restauro de ícone tratou um São Mateus em têmpera sobre madeira, de 33,3 x 46 cm, com folha de ouro verdadeiro. Havia perdas na camada pictórica e no ouro, craquelamentos, sujidades e travas atacadas por xilófagos. Substituímos as travas por outras de pinho de Riga, reintegramos o ouro e a pintura e restauramos a moldura.

Um ícone é feito para a oração antes de ser feito para a parede. Diante dele as pessoas rezam, acendem uma vela, pedem. Esse uso não é um detalhe da história do objeto: é a razão de ele existir, e é a primeira coisa que levamos em conta quando um ícone chega ao ateliê.

Diagnóstico do ícone: perdas no ouro, na pintura e no suporte

O ícone chegou com partes faltantes nas duas camadas que formam a imagem: a pintura em têmpera e a folha de ouro verdadeiro. O diagnóstico registrou ainda sujidades, craquelamentos e alteração na superfície do douramento.

O problema mais grave, porém, estava atrás da imagem. As travas originais, as peças de madeira que estruturam o painel, apresentavam ataque de insetos xilófagos. Comprometidas por dentro, não dariam mais o suporte necessário ao ícone.

Como foi feito o restauro do ícone de São Mateus

Num ícone pintado sobre madeira, quem sustenta a imagem é o painel. O ouro e a cor dependem dele. Por isso o trabalho começou pelo verso.

Substituição das travas em pinho de Riga

As travas atacadas foram substituídas por outras da mesma madeira, pinho de Riga. A escolha da mesma espécie não é capricho: madeiras diferentes reagem de modo diferente à umidade, e um painel preso a travas que se comportam de outro jeito acaba sofrendo tensões que se transmitem à pintura.

Trocar uma peça original é sempre uma decisão pesada. Aqui ela se justificava pela função: travas que não sustentam deixam de proteger o que deveriam proteger.

Reintegração do ouro verdadeiro

As lacunas na folha de ouro foram reintegradas com ouro verdadeiro, o mesmo material do douramento original. Num ícone, o ouro não é enfeite de fundo. É parte da linguagem da imagem, e uma falha nele interrompe a leitura tanto quanto uma falha no rosto do santo.

Reintegração da camada pictórica

As perdas da pintura em têmpera foram reintegradas, para que a figura de São Mateus volte a ser lida inteira.

Restauro da moldura

Por fim, a moldura também foi restaurada. Ela faz parte do objeto que chegou até nós e da forma como o ícone é visto e manuseado.

Por que um ícone não se restaura só como pintura

Cesare Brandi ensinou a olhar a obra de arte por duas exigências: a estética e a histórica. Para um ícone, falta uma terceira. A teoria contemporânea do restauro passou a reconhecer o valor devocional como parte do que se preserva. O conservador Jonathan Ashley-Smith registra a mudança: "desde o início dos anos 1990, os conservadores tornaram-se mais sensíveis ao valor do sagrado".

Na prática, isso muda as perguntas. Não basta perguntar o que é original e o que é perda; é preciso perguntar como esse ícone será usado depois de restaurado e para quem ele importa. Um ícone de oração pede uma leitura íntegra da figura e do ouro. Mas a sensibilidade ao sagrado não dá licença para inventar: o que entra no restauro deve ser registrado e poder ser identificado por quem vier depois.

O que o restauro devolveu ao ícone

Um ícone firme, sustentado por travas sãs, com o ouro e a pintura voltando a formar uma só imagem. A idade da obra continua visível. O que saiu foram os danos que ameaçavam sua permanência, não as marcas do tempo que fazem parte dela.

São Mateus, o coletor de impostos que deixou tudo

São Mateus, apóstolo e evangelista, chamava-se Levi antes da conversão. Morava em Cafarnaum, na Palestina, e trabalhava como coletor de impostos. Quando ouviu de Jesus a palavra "Segue-me", deixou tudo imediatamente: largou a vida ligada ao dinheiro e ao poder para se dedicar à pregação da mensagem cristã, em pobreza.

Ficha técnica

  • Obra: Ícone de São Mateus
  • Autor: desconhecido (como é comum nos ícones, a obra não é assinada)
  • Técnica: têmpera sobre madeira, com folha de ouro verdadeiro
  • Medidas: 33,3 x 46 cm
  • Diagnóstico: sujidades, ataque de xilófagos nas travas, alteração na superfície do douramento, perdas de camada pictórica e de ouro, craquelamentos
  • Procedimentos: substituição das travas por outras de pinho de Riga, reintegração do ouro verdadeiro, reintegração da camada pictórica, restauro da moldura

Perguntas frequentes sobre restauro de ícone

Um ícone restaurado pode voltar a ser usado para a oração?

Pode, e o restauro deve levar isso em conta desde o diagnóstico. Saber onde o ícone vai ficar, se será tocado, transportado ou exposto à fumaça de velas, ajuda a definir o grau de reintegração e os cuidados de conservação depois da entrega. O uso devocional é uma informação de projeto, não um obstáculo.

Por que as travas de um ícone precisam ser trocadas?

Nem sempre precisam. As travas estruturam o painel de madeira, e só se substituem quando deixam de cumprir essa função, por exemplo quando estão atacadas por insetos ou quebradas. Quando é preciso trocar, usa-se madeira de comportamento compatível com a do painel. A decisão depende de um diagnóstico do suporte.

O restauro de ícone apaga as marcas do tempo?

Não deveria. Um restauro sério remove o que ameaça a obra, como sujidades e materiais que a desfiguram, e repõe o que se perdeu quando há base para isso. O desgaste legítimo da idade e o craquelê natural fazem parte da história do ícone e do uso que ele teve.

Se você guarda um ícone com perdas no ouro, na pintura ou com o painel solto, comece por um diagnóstico. Preserve a obra sem apagar a sua história.

Texto de Clayton Caner, arquiteto e restaurador da CANERSTUDIO.

Este trabalho faz parte do serviço de restauração de imagens sacras e arte sacra.

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