Restauração do mural da Santa Ceia, em Siqueira Campos (PR)
A restauração do mural da Santa Ceia, em Siqueira Campos (PR), salvou uma pintura a óleo sobre parede feita por Frei Pedro Bini na década de 1950 no seminário dos frades capuchinhos, junto ao Santuário do Senhor Bom Jesus da Cana Verde. Com 1,50 m de altura e 3,00 m de largura, o painel chegou com a tinta em craquelê, soltando-se da alvenaria em placas e com perdas extensas, sobretudo na faixa inferior. Ao todo, o trabalho durou de julho a agosto de 2026.
De longe, a cena ainda se lia: Cristo ao centro, os doze apóstolos em volta da mesa em U, o piso em xadrez. De perto, porém, o quadro era outro. A tinta tinha se partido em pequenas placas, muitas com as bordas levantadas, e cada uma que caía levava junto um pedaço da pintura. Em algumas áreas, além disso, bastava um toque para a placa se soltar.
Frei Pedro Bini e o mural da Santa Ceia
A pintura é de Frei Pedro Bini, que a executou diretamente sobre a parede na década de 1950. Uma fotografia da época mostra o frade de hábito diante do mural, de pé sobre um andaime de madeira, com a composição já inteira na parede: a mesa em U, as colunas, as janelas ao fundo e o piso em xadrez que o restauro viria a recompor setenta anos depois. No próprio piso, ele deixou a assinatura, que as perdas de tinta também tinham atingido.
A obra pertence à Província São Lourenço de Brindes, dos frades capuchinhos, e fica no seminário dos freis, vizinho ao Santuário do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, que guarda a imagem do Bom Jesus da Cana Verde, restaurada pela CANERSTUDIO no início de 2026.
Diagnóstico: por que o mural da Santa Ceia se partia
Em pintura mural, a primeira suspeita é sempre a umidade. Aqui, porém, boa parte do problema estava na própria técnica. Frei Pedro Bini usava óleo em excesso nas veladuras, as camadas finas e transparentes que dão profundidade às cores. Esse excesso de óleo, portanto, contrai e endurece de forma desigual ao envelhecer: a película se parte em craquelê e, sobre a alvenaria, perde a aderência.
O levantamento registrou:
- Desprendimento da camada pictórica, com craquelê em placas e bordas levantadas, sobretudo nas zonas de sombra e na faixa inferior.
- Perdas de camada pictórica, com a base exposta e o desenho do artista interrompido, como no jarro, na toalha da mesa e no piso em xadrez, onde fica a assinatura do frade.
- Pontos de escurecimento, também causados pelo excesso de óleo.
- Sujidades acumuladas, que além disso apagavam a leitura das cores.
Num quadro assim, a ordem das etapas decide tudo. Ou seja, limpar antes de fixar seria arrastar a tinta solta junto com a sujeira.
Como foi feita a restauração do mural da Santa Ceia
Fizemos o trabalho no próprio lugar, sobre andaime, de 6 de julho a 7 de agosto de 2026.
1. Limpeza a seco e limpeza úmida
Primeiro, a sujidade superficial saiu por meio mecânico, sem umidade. Em seguida veio a limpeza úmida, com produtos próprios para conservação, sempre precedida de teste de solubilidade, porque cada área da pintura reage de um jeito.
2. Faceamento da camada pictórica
Para segurar a tinta que se desprendia, a superfície recebeu faceamento: papel aplicado com cola especial para faceamento, em módulos, sobre as áreas em risco. Assim, o papel funciona como uma atadura provisória. Dessa forma, ele mantém cada fragmento no lugar durante o tratamento e evita que a matéria original se perca no manuseio.
3. Nivelamento das lacunas
Onde a pintura tinha se perdido, as lacunas foram niveladas até o plano da superfície pintada. Por isso, o nivelamento devolve a base contínua sobre a qual a cor pode ser reintegrada.
4. Reintegração cromática
Fizemos os retoques com tintas próprias de restauro, restritos às lacunas, sem cobrir a pintura que restou. Com isso, o piso em xadrez, a toalha, o jarro e as vestes dos apóstolos voltaram a ter continuidade, e a cena voltou a ser lida inteira.
5. Proteção final
A superfície recebeu um verniz de proteção próprio para restauro, que protege a pintura contra a umidade e dificulta o desenvolvimento de bolor e outros microrganismos.
6. Moldura
A moldura branca ornamentada que emoldura o painel foi limpa, e os ornamentos receberam acabamento em tinta dourada. Ou seja, é um acabamento da moldura, sem nenhuma interferência na pintura original.
O critério no mural da Santa Ceia: devolver a leitura sem repintar o artista
O manual de conservação de pinturas organizado por Joyce Hill Stoner e Rebecca Rushfield resume a regra que orientou o retoque: "A camada pictórica original deve ser respeitada, sem ser alterada nem ocultada." Por isso a cor nova entrou só onde a antiga tinha caído. Dessa forma, o que restava da mão de Frei Pedro Bini, mesmo marcado pelo tempo, ficou à vista.
O restauro também não tenta corrigir o artista. Afinal, o excesso de óleo faz parte da maneira como ele pintou, e o craquelê fino que permanece nas áreas estáveis é marca legítima de idade, não um defeito a esconder. Em suma, o objetivo era deter a perda e devolver a leitura, não fazer uma Santa Ceia nova.
O que a restauração devolveu ao mural da Santa Ceia
Finalmente, a pintura voltou a ficar presa à parede, com as lacunas integradas e a superfície protegida. Além disso, a comunidade recuperou uma cena que conhece há gerações, e os freis recuperaram um documento da sua própria história: a obra que Frei Pedro Bini pintou com as próprias mãos, como mostra a fotografia dos anos 1950.
Ficha técnica do mural da Santa Ceia
- Obra: Santa Ceia
- Autoria: Frei Pedro Bini
- Data: década de 1950
- Técnica: pintura a óleo sobre parede (pintura mural)
- Dimensões: 1,50 m × 3,00 m
- Local: seminário dos frades capuchinhos, junto ao Santuário do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, Siqueira Campos (PR)
- Proprietário: Província São Lourenço de Brindes, Curitiba (PR)
- Período do restauro: 6 de julho a 7 de agosto de 2026
- Diagnóstico: desprendimento da camada pictórica com craquelê em placas; perdas de camada pictórica; escurecimentos por excesso de óleo; sujidades
- Procedimentos: limpeza mecânica a seco e limpeza úmida com teste de solubilidade; faceamento com papel e cola especial; nivelamento das lacunas; reintegração cromática com tintas de restauro; verniz de proteção próprio para restauro; limpeza da moldura e acabamento dourado dos ornamentos
Perguntas frequentes sobre o mural da Santa Ceia e o restauro de pintura mural
Por que a pintura a óleo na parede craquela e solta?
O óleo forma uma película que, com o tempo, endurece e perde elasticidade. Por isso, quando o pintor usa óleo em excesso, essa película se contrai de forma desigual e se parte em craquelê. Sobre parede, ela ainda depende da aderência à alvenaria: se a umidade ou o próprio envelhecimento enfraquecem essa ligação, as placas levantam e caem.
O que é faceamento na restauração de mural?
É a aplicação de papel com um adesivo provisório sobre a superfície da pintura, nas áreas em que a tinta está se soltando. O papel segura os fragmentos enquanto o restaurador trabalha e depois é retirado. Assim, é a forma de não perder a matéria original durante o tratamento.
Dá para restaurar um mural sem tirá-lo da parede?
Na maioria dos casos, sim, e é o caminho preferível. Por exemplo, a Santa Ceia foi tratada inteira no próprio lugar, sobre andaime. Retirar uma pintura da parede é a intervenção mais radical que existe e só se justifica quando a permanência ali ameaça a sobrevivência da obra.
Como cuidar de um mural depois do restauro?
Em primeiro lugar, evitar oscilações bruscas de umidade e temperatura, verificar periodicamente a parede e o telhado, manter a pintura longe de sol direto e de fontes de calor e limpar só com espanador macio e seco. Antes de qualquer reforma ou pintura na parede vizinha, também é preciso consultar o restaurador. Além disso, reunimos esses cuidados na página de conservação preventiva.
Se a sua igreja, capela ou casa tem um mural com a tinta craquelando ou soltando em placas, comece por um diagnóstico, antes de qualquer retoque ou repintura. Veja também como tratamos o mural da Capela da Santíssima Trindade, em Botucatu. O restauro começa no olhar.
Texto de Clayton Caner, arquiteto e restaurador da CANERSTUDIO.
Este trabalho faz parte do serviço de restauração de igrejas, capelas e pintura mural.
Veja como conduzimos o diagnóstico, o que define o orçamento e outros casos do mesmo tipo. Restauração de pintura mural e forros


















