Restauração de mural de capela: a Santíssima Trindade de Botucatu
Esta restauração de mural de capela, na Santíssima Trindade de Botucatu, devolveu leitura à pintura da abside da capela do Seminário São José (SP): um óleo sobre alvenaria pintado em 1953 por Henrique Carlos Bicalho Oswald, com Jacyra Oswald, atingido por infiltração, sais, bolor e desprendimento da tinta. O trabalho durou de abril a setembro de 2024.
Bastou uma falha no telhado. A água entra devagar, desce por dentro da alvenaria e, quando chega à pintura, já carrega os sais da parede. Quem olha de baixo vê manchas brancas e uma névoa sobre os rostos dos santos. No andaime, a leitura é outra: tinta levantando, fissuras abertas e bolor nas áreas mais úmidas.
Uma capela pensada para ensinar
A Capela da Santíssima Trindade foi encomendada em 1951 por Dom Henrique Golland Trindade, então bispo de Botucatu e depois seu primeiro arcebispo, para os seminaristas do Seminário São José. O projeto é de Benedito Calixto de Jesus Neto, o arquiteto da Basílica de Aparecida: nave retangular de tijolos aparentes, tesouras de madeira à vista e uma abside em semicírculo, à maneira das basílicas paleocristãs romanas.
É nessa abside que está o mural. Henrique Oswald fez o anteprojeto em 1952 e pintou a versão final em 1953, com a participação de Jacyra Carvalho Oswald, que desenhou personagens e pintou vestes; a figura de Maria é atribuída a ela. A pedido do bispo, as figuras passaram de 30 no anteprojeto para 55 na parede, com a Santíssima Trindade ao centro, cercada por anjos e santos. O estilo é bizantino: figuras planas e frontais, alongadas, agrupadas sobre fundo dourado. Embora muitas vezes chamado de afresco, o mural é uma pintura a seco, em óleo sobre alvenaria, diferença que explicamos em pintura mural a seco em igrejas. A história está registrada no artigo de Julia Carolina Athanázio-Heliodoro (2022), que se apoia na dissertação de Maria Amélia Blasi de Toledo Piza sobre o mural (UNESP, 1997), e foi notícia no Jornal Audácia.
Não era a primeira intervenção. Depois de cerca de cinquenta anos, a pintura já tinha sofrido com infiltrações e foi restaurada em 2004, com recursos reunidos pela comunidade de Botucatu.
Diagnóstico: o que a infiltração fez com o mural da capela
A causa estava acima da pintura. Uma falha no telhado deixou a água entrar na parede da abside. Com ela vieram os sais solúveis da alvenaria, que cristalizam quando a água evapora: parte aflora como pó e manchas brancas, parte se forma por baixo da tinta e a empurra para fora.
O resultado, no mural, foi uma soma de danos:
- Eflorescências de sais e manchas de infiltração sobre as figuras e o fundo.
- Desprendimento da camada pictórica, com tinta levantada e perdas, inclusive nos resplendores.
- Trincas e craquelados na pintura.
- Bolor, favorecido pela umidade retida na parede.
Num mural, a água vem antes da tinta. Por isso o telhado foi consertado antes de o restauro começar: tratar a superfície sem resolver a infiltração é pintar sobre um problema que continua trabalhando por dentro.
Como foi feita a restauração do mural da capela
O trabalho foi feito no próprio lugar, sobre andaimes montados na abside, de abril a setembro de 2024.
Limpeza de sujidades e bolor
A limpeza começou a seco, para retirar a sujidade solta sem levar água à parede, e seguiu com limpeza úmida e produtos específicos para eliminar o bolor. A ordem importa: tirar primeiro o que está solto evita arrastar sujeira e esporos para dentro da pintura molhada.
Faceamento da camada pictórica
Nas áreas em que a tinta se soltava, a camada pictórica recebeu faceamento: uma proteção temporária aplicada sobre a superfície, que segura os fragmentos no lugar enquanto a pintura é tratada e impede que se percam durante o trabalho. O adesivo do faceamento é aplicado a pincel, área por área.
Reintegração em tratteggio
As lacunas foram reintegradas em tratteggio: finos traços paralelos de cor, aplicados a pincel com tintas próprias para restauro. Vista da nave, a pintura volta a ser lida inteira. De perto, no andaime, os traços mostram onde entrou a mão do restaurador.
Verniz de proteção
Uma camada de verniz protetor fecha a superfície tratada.
Folha de ouro nos resplendores
Por fim, os resplendores das figuras receberam folha de ouro, aplicada sobre uma base preparada. O ouro em folha não oxida, tem mais brilho e resiste melhor ao tempo. Num mural de fundo dourado e linguagem bizantina, é o brilho dos resplendores que marca, de longe, a hierarquia das figuras em volta da Trindade.
O critério: retocar sem repintar Oswald
Cesare Brandi defendia que toda reintegração deve ser invisível à distância de onde a obra é vista e reconhecível assim que nos aproximamos, feita com material diferente do original e removível no futuro. Num mural a óleo, isso exclui o atalho de repintar com mais óleo por cima, critério que seguimos também no mural a óleo de Marrone, em Ipanema. O tratteggio responde às duas distâncias da capela: a do fiel no banco, que precisa ver a Trindade inteira, e a do próximo restaurador no andaime, que precisa saber o que é de Oswald e o que é de 2024.
Há também o critério do uso. Este mural não está num museu. Ele foi pensado por Dom Henrique como uma lição para seminaristas e continua diante de uma comunidade que reza ali. A restauração precisava devolver a leitura das figuras, não só estabilizar a matéria.
O que a restauração do mural devolveu à capela
Não um mural com cara de recém-pintado. A pintura voltou a ficar presa à parede, livre do bolor e das manchas que cobriam os rostos, com as perdas integradas e os resplendores de novo luminosos. As marcas legítimas de setenta anos continuam lá, porque fazem parte da obra. E a abside voltou a fazer o que Calixto e Oswald pensaram para ela: conduzir o olhar de quem entra até a Santíssima Trindade.
Ficha técnica
- Obra: pintura mural da abside, a Santíssima Trindade cercada por anjos e santos
- Autoria: Henrique Carlos Bicalho Oswald, com Jacyra Carvalho Oswald
- Data: 1953 (anteprojeto de 1952)
- Técnica: óleo sobre alvenaria
- Local: Capela da Santíssima Trindade, Seminário São José, Botucatu (SP)
- Arquitetura: Benedito Calixto de Jesus Neto
- Proteção legal: bem não tombado
- Período do restauro: abril a setembro de 2024
- Diagnóstico: infiltração de água por falha no telhado, sais solúveis, manchas de infiltração, desprendimento da camada pictórica, trincas e craquelados, bolor
- Procedimentos: limpeza a seco e úmida com produtos específicos para bolor, faceamento da camada pictórica, reintegração em tratteggio com tintas para restauro, verniz de proteção, folha de ouro sobre base preparada nos resplendores
Perguntas frequentes sobre restauração de mural de capela
Infiltração pode estragar a pintura de uma capela?
Pode, e é a causa mais comum de dano em pintura mural. A água dissolve os sais da parede, que cristalizam sob a tinta e a empurram para fora; a umidade retida ainda favorece o bolor. Por isso o primeiro passo é sempre resolver a entrada de água, no telhado, nas calhas ou no piso. Só depois a pintura deve ser tratada.
O que é faceamento da camada pictórica?
É uma proteção temporária aplicada sobre a superfície da pintura nas áreas em que a tinta está se soltando. Ela segura os fragmentos no lugar enquanto o restaurador trabalha, evitando que se percam. Terminado o tratamento, o faceamento é retirado. Onde e como aplicá-lo depende do diagnóstico de cada mural.
Por que usar tratteggio num mural de igreja?
Porque o tratteggio integra a lacuna sem repintar o artista. De longe, os traços de cor se fundem com a pintura e a cena volta a ser lida; de perto, mostram o que é restauro. É uma forma honesta de devolver unidade à obra, e removível: quem vier depois pode refazer o trabalho sem tocar no original.
Capela não tombada precisa de autorização para restaurar?
Bens que não são tombados não dependem de autorização do IPHAN ou do órgão estadual. Ainda assim, vale consultar a diocese, que costuma ter uma comissão de arte sacra e bens culturais, e verificar se o município tem regras próprias de proteção. Tombado ou não, o critério técnico do restauro é o mesmo.
Se a sua igreja ou capela tem uma pintura mural com manchas, tinta se soltando ou sinais de infiltração, comece por um diagnóstico, antes de qualquer obra ou repintura. Preserve a obra sem apagar a sua história.
Texto de Clayton Caner, arquiteto e restaurador da CANERSTUDIO.
Este trabalho faz parte do serviço de restauração de igrejas, capelas e pintura mural.
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