Restaurador de Quadros: o retrato de Dom José Maurício da Rocha
Dom José Maurício da Rocha foi bispo diocesano de Bragança Paulista de 4 de fevereiro de 1927 a 24 de novembro de 1969. Seu retrato a óleo pertence à Diocese, que o confiou a nós como restaurador de quadros. O trabalho incluiu exame da pintura em luz ultravioleta e o douramento da moldura em folha de ouro.
Num retrato assim convivem três coisas. Há a pintura, com suas escolhas de cor e de luz. Há o documento: o rosto, as vestes e as insígnias de quem conduziu a diocese por mais de quatro décadas. E há a memória de uma instituição que guarda os retratos de seus bispos para lembrar de onde veio. Restaurar bem é servir às três ao mesmo tempo.
O que um restaurador de quadros procura num retrato oficial
Procuramos primeiro a causa, depois o dano. Umidade, luz, variações de temperatura, poeira, insetos e manuseio são os agentes que mais afetam pinturas guardadas em acervos institucionais. Eles agem devagar e se somam, e o problema costuma ser percebido tarde, quando a pintura já escureceu ou começou a soltar.
Num retrato que atravessou gerações dentro de uma mesma instituição, também perguntamos onde e como ele será exibido depois. A resposta muda decisões de limpeza e de reintegração.
Como foi feito o restauro do retrato
Duas etapas marcam este trabalho: o exame em luz ultravioleta e o douramento da moldura. Em volta delas, seguimos o procedimento que adotamos para retratos a óleo. Nenhuma etapa entra por rotina.
Exame da pintura em luz ultravioleta
O retrato foi examinado em luz ultravioleta, que ajuda a enxergar o que o olho não alcança. Vernizes antigos e retoques de outras épocas reagem de forma diferente sob essa luz, e isso orienta as decisões seguintes sem tocar na pintura. Num exame completo também se observam a técnica do pintor, os materiais, os danos e as intervenções anteriores.
Douramento da moldura em folha de ouro
A moldura recebeu douramento em folha de ouro. Num retrato oficial, ela faz parte da apresentação do retratado e da galeria a que pertence.
O procedimento do ateliê para retratos a óleo
Neste tipo de obra, nosso procedimento inclui limpeza com solventes escolhidos para o caso e testados antes em áreas pequenas. É uma etapa de equilíbrio: retirar o que é sujidade sem tocar no que é pintura. O que sai numa limpeza não volta.
Fissuras, craquelês e lacunas, quando existem, recebem massa compatível com a pintura e, em seguida, reintegração cromática, para que as perdas deixem de interromper a leitura sem cobrir nada que seja do pintor. O trabalho se encerra com uma camada de verniz de proteção, que envelhece e poderá ser renovada no futuro.
O critério: não rejuvenescer o retratado
Num retrato, há um erro fácil de cometer: corrigir o que parece defeito e acaba sendo a mão do pintor. Rugas suavizadas, contornos "melhorados", cores avivadas. Para nós, um retrato oficial não se rejuvenesce.
A restauradora norte-americana Barbara Appelbaum formula a regra que seguimos: o tratamento busca um estado que a obra realmente teve, não a aparência que o proprietário ou o restaurador gostaria que ela tivesse. Inscrições, brasões e marcas antigas fazem parte da história do quadro e são preservados.
A outra regra é olhar para quem vem depois. Tudo o que aplicamos precisa poder ser revisto por outro restaurador, sem dano à obra. Nenhuma restauração é definitiva.
O que o restauro devolveu ao retrato
Não um esplendor imaginado. O que buscamos devolver a um retrato como este é estabilidade e leitura: a figura de Dom José inteira para quem passa diante dela, numa moldura outra vez dourada, com as marcas de idade que fazem parte da sua história.
Ficha técnica
- Obra: Retrato de Dom José Maurício da Rocha
- Retratado: Dom José Maurício da Rocha, bispo diocesano de Bragança Paulista (1927–1969)
- Técnica: pintura a óleo
- Proprietário: Diocese de Bragança Paulista
- Procedimentos: exame em luz ultravioleta, douramento da moldura em folha de ouro
Perguntas frequentes sobre restaurador de quadros
Que documentos o restaurador de quadros entrega ao final?
Um registro do estado em que a obra chegou, do que foi feito e com quais materiais, acompanhado de fotografias de antes, durante e depois. Esse relatório serve ao proprietário, ao arquivo da instituição e, sobretudo, ao próximo restaurador, que precisará saber o que encontrou. Inclui também orientações de conservação.
Retratos de uma mesma galeria precisam ser restaurados juntos?
Não necessariamente. Cada retrato tem seu próprio estado e recebe seu próprio diagnóstico. Mas, quando os quadros são exibidos em conjunto, como numa galeria de bispos ou de fundadores, vale pensar no resultado do grupo, para que nenhum fique destoante. Essa coerência é combinada com a instituição antes do trabalho.
Inscrições, etiquetas e carimbos no verso do quadro são mantidos?
Sim. Inscrições, etiquetas, carimbos e brasões contam a história da obra: quem a encomendou, por onde passou, que restauros recebeu. São documentados em fotografia e preservados. Só se intervém neles quando ameaçam a conservação da pintura, e mesmo assim com registro do que foi feito.
O restaurador precisa ver o quadro pessoalmente?
Fotos ajudam numa primeira conversa, mas o diagnóstico depende do exame da obra: a resposta da tinta, o estado da tela e do chassi, a presença de retoques antigos. Prazo e valor só podem ser definidos depois desse exame, porque dependem do que a pintura realmente tem.
Se a sua instituição ou a sua família guarda retratos que precisam de cuidado, comece por um diagnóstico. O restauro começa no olhar.
Texto de Clayton Caner, arquiteto e restaurador da CANERSTUDIO.
Este trabalho faz parte do serviço de restauração de quadros e pinturas.
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