Restauração de Quadro de Victorio Panuncio: a paisagem do ipê
Esta restauração de quadro de Victorio Panuncio começou por um erro antigo: alguém, um dia, colou a paisagem numa chapa de fibra de madeira (o popular Duratex). O óleo sobre tela de 40 x 50 cm chegou com sujidades, verniz oxidado, rasgos e perdas de tinta, presa a um suporte inadequado. Retiramos a placa à mão, com formões e bisturi, e reentelamos a obra com Beva 371 e linho na mesa de calor a vácuo.
Colar uma tela numa placa parece uma solução: o quadro fica firme, para de ondular, parece protegido. É uma promessa ruim. A tela pintada precisa responder à umidade e à temperatura, e a cola impede isso. Quando o suporte rígido envelhece, empena ou se degrada, leva a pintura junto. Cola permanente é a pior promessa que se pode fazer a uma pintura.
Diagnóstico: o que estava errado com o quadro de Panuncio
O dano mais grave era o suporte. A tela estava fixada num suporte rígido inadequado, e esse era o problema que tornava todos os outros mais difíceis de tratar.
Somavam-se a ele sujidades, um verniz oxidado, que escurece e amarela as cores, rasgos no tecido e perda de camada pictórica. Numa paisagem, em que a leitura depende tanto da cor e da luz, um verniz escurecido pesa sobre a imagem inteira.
Como foi feita a restauração do quadro
Retirada manual do suporte rígido
A primeira etapa foi separar a tela da chapa de fibra. Não há atalho para isso. A remoção foi feita à mão, com formões e bisturi, avançando pouco a pouco entre a placa e o verso da tela. É um processo lento, que exige habilidade e experiência: cada movimento precisa tirar o suporte sem rasgar o tecido nem soltar a tinta do outro lado.
Reentelagem com Beva 371 e linho na mesa de calor a vácuo
Livre da chapa, a obra precisou de uma reentelagem: uma tela de linho nova, colada no verso, para devolver apoio ao tecido original. Antes, a face da pintura recebeu um faceamento, uma camada provisória de proteção que segura a tinta durante a operação. O adesivo foi a Beva 371, um adesivo termoplástico desenvolvido para conservação, que se ativa com calor. A operação foi feita na mesa de calor a vácuo, que distribui calor e pressão de forma uniforme por toda a superfície. Para formar o vácuo, a obra foi coberta com Melinex, um filme de poliéster.
Com a tela reentelada, fizemos o ajuste no linho e grampeamos a obra num suporte de trabalho. Por fim, retiramos o faceamento e os resíduos de cola da superfície da pintura.
O critério: um apoio que possa ser desfeito
A diferença entre a placa antiga e a reentelagem nova não é só de material. É de princípio. A Carta del Restauro italiana de 1972, documento ligado à escola de Cesare Brandi, já excluía de forma absoluta a colagem de pinturas sobre tela em suportes rígidos. E o princípio que orienta nosso trabalho vem da mesma escola: nenhuma intervenção deve impedir as futuras.
A reentelagem também é uma intervenção forte, e hoje é usada com reserva. Até os anos 1970 era feita em quase todo quadro com problema estrutural. Depois disso, a profissão passou a preferir tratamentos locais sempre que possível. A reentelagem ficou reservada aos casos em que é de fato necessária. Este foi um deles, e por isso escolhemos um adesivo que outro restaurador, no futuro, poderá remover.
O que a restauração devolveu à paisagem
Uma tela que voltou a ser tela. Sem a placa, o tecido original tem de novo um apoio flexível e uniforme, capaz de acompanhar as variações do ambiente sem transferir esforço para a tinta. A paisagem de Panuncio segue com a sua idade, agora sobre uma base que não ameaça a sua permanência.
Victorio Panuncio, pintor da paisagem bragantina
Victorio Panuncio nasceu em Bragança Paulista em 28 de janeiro de 1924 e morreu em 23 de outubro de 1980. Filho de imigrantes italianos, foi incentivado pelo pintor bragantino Luis Gualberto, que percebeu cedo o seu talento. Recebeu também a influência de Hermes di Bernardi, pintor italiano radicado em Bragança.
Seus quadros registram o recanto bucólico, a topografia e a paisagem da região bragantina e do sul de Minas Gerais. Em 1972 conheceu Mestre Justino, artista de Redenção da Serra que estava em Bragança para pintar a Via Sacra nas paredes da nova catedral. Com ele aprendeu novas técnicas, e sua pintura ganhou tonalidades fortes, contrastantes e agressivas. Expôs em mostras coletivas e individuais em Bragança Paulista, Atibaia e região, e foi premiado no 2º Salão de Atibaia.
Ficha técnica
- Obra: Paisagem (ipê)
- Autor: Victorio Panuncio
- Técnica: óleo sobre tela
- Medidas: 40 x 50 cm
- Diagnóstico: sujidades, tela colada em chapa de fibra de madeira (suporte rígido inadequado), verniz oxidado, rasgos no tecido, perda de camada pictórica
- Procedimentos: retirada manual da chapa de fibra com formões e bisturi, faceamento, reentelagem com Beva 371 e linho em mesa de calor a vácuo com Melinex, retirada do faceamento e dos resíduos de cola
Perguntas frequentes sobre restauração de quadro de Victorio Panuncio
Um quadro colado em placa ou compensado pode ser recuperado?
Na maioria dos casos, sim. O suporte rígido é removido aos poucos, à mão, e a tela recebe um novo apoio adequado, geralmente uma reentelagem. É um trabalho lento e delicado, cujo risco depende do tipo de cola, do material da placa e do estado da tinta, avaliados no diagnóstico.
O que é Beva 371?
É um adesivo termoplástico desenvolvido para a conservação de pinturas e muito usado em reentelagens. Ativa-se com calor, o que permite trabalhar com controle na mesa a vácuo, e pode ser removido no futuro com solventes adequados. Por isso é preferido às colas tradicionais, que endurecem e são difíceis de desfazer.
Como saber se um quadro de Victorio Panuncio precisa de restauro?
Observe se a superfície escureceu ou amarelou de forma uniforme, se há tinta levantando ou faltando, rasgos, ondulações na tela ou sinais de insetos no chassi. Olhe também o verso: tela colada em placa, fitas adesivas e remendos antigos merecem avaliação. Só o exame da obra define o que é necessário.
Se você guarda uma obra de Victorio Panuncio ou de outro pintor da região bragantina, comece por um diagnóstico. Preserve a obra sem apagar a sua história.
Texto de Clayton Caner, arquiteto e restaurador da CANERSTUDIO.
Este trabalho faz parte do serviço de restauração de quadros e pinturas.
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