Restauração da imagem do Bom Jesus da Cana Verde, em Siqueira Campos (PR)
A restauração da imagem do Bom Jesus da Cana Verde, em Siqueira Campos (PR), tratou a escultura de madeira policromada venerada no santuário da cidade. Ela chegou ao ateliê com galerias de cupim no interior das pernas, dos pés e das mãos, lacunas na madeira, partes faltantes e a policromia suja, manchada e com retoques antigos. O trabalho, de janeiro a maio de 2026, teve duas etapas: primeiro a descupinização, depois o restauro.
Por fora, a imagem parecia apenas gasta. O cupim age por dentro e em silêncio: escava galerias e consome a madeira, mas poupa a camada de policromia, que fica como uma película sobre o vazio, até que alguém manuseia a obra e a tinta afunda. Numa imagem de devoção, que é vestida e manuseada, esse dano escondido é também um risco de quebra.
Uma imagem de devoção popular
Em 1934, o bispo Dom Fernando Tadei presenteou a cidade de Siqueira Campos com a imagem do Senhor Bom Jesus da Cana Verde. Desde então, a festa acontece todo 6 de agosto. Nos anos 1950, a imagem ganhou uma capela ao lado da igreja matriz e, em 1975, passou ao santuário inaugurado junto ao seminário dos frades capuchinhos, onde está até hoje. Segundo o próprio santuário, a festa de agosto reúne cerca de 150 mil pessoas.
A iconografia é a do Ecce Homo: Cristo depois da flagelação, coroado de espinhos, com as mãos atadas e uma cana verde como cetro de zombaria. A escultura é de madeira policromada, de autor e época desconhecidos, e se apresenta vestida com manto de veludo bordado. O restauro foi feito a pedido da Província São Lourenço de Brindes, dos frades capuchinhos.
Diagnóstico: o que os cupins fizeram com a imagem do Bom Jesus
O exame percorreu a escultura inteira em busca das galerias abertas pelos cupins. Elas estavam concentradas nas pernas, nos pés e nas mãos, as partes de madeira mais fina. Em vários pontos, o miolo da madeira tinha virado pó e restava só a casca pintada por cima.
O levantamento registrou:
- Ataque de cupins, com furos, galerias e lacunas na madeira.
- Partes faltantes, comprometidas pelo ataque.
- Desprendimento e perda da policromia, com craquelê em placas e bordas soltas.
- Sujidades, fuligem e manchas que apagavam a leitura das cores.
- Pontos escurecidos na camada pictórica, causados por excesso de óleo.
- Marcas de retoques anteriores.
Num caso assim, a ordem não se discute: enquanto houver cupim vivo, qualquer retoque é perdido. A estrutura vem antes da superfície, como no Cristo da Igreja Matriz de Ubatuba, também atacado por insetos que comem a madeira.
Como foi feita a restauração da imagem do Bom Jesus da Cana Verde
1. Descupinização
A madeira foi perfurada nos pontos de ataque, para levar o cupinicida até as galerias internas, onde os insetos estavam. Depois da aplicação, a imagem foi ensacada e mantida fechada, para que o tratamento agisse sobre toda a peça.
2. Limpeza a seco e limpeza úmida
A sujidade superficial saiu primeiro, a seco, sem umidade. Em seguida veio a limpeza úmida, com produtos próprios para conservação, sempre precedida de teste de solubilidade numa área discreta. A policromia de uma imagem antiga pode reagir de forma diferente em cada parte do corpo.
3. Limpeza das lacunas do cupim
As galerias foram abertas e esvaziadas do material decomposto, o pó de madeira e os resíduos deixados pelo ataque. Preencher sem limpar seria fechar o problema dentro da peça.
4. Preenchimento, nivelamento e base da policromia
As lacunas foram preenchidas com resina e niveladas até a altura da superfície original. Sobre o preenchimento, aplicou-se a base que recebe a cor.
5. Reintegração cromática
Os retoques foram feitos com tintas próprias de restauro e restritos às lacunas, preservando a policromia remanescente. Isso inclui os filetes de sangue do corpo do Cristo, pintados com pincel fino.
6. Proteção final
Uma camada de verniz de proteção fecha a superfície tratada.
O critério: tão pouco quanto possível, tanto quanto necessário
O manual de Unger, Schniewind e Unger sobre conservação de madeira resume a regra que orientou cada decisão: todo tratamento deve partir da premissa "tão pouco quanto possível, tanto quanto necessário". Na imagem do Bom Jesus, o necessário era muito: eliminar os cupins e devolver solidez às pernas, aos pés e às mãos. O possível, na superfície, era pouco: retocar só onde a cor se perdeu, sem repintar a imagem inteira e sem apagar as marcas de idade que pertencem a ela.
Há ainda o critério do uso. Esta não é uma peça de museu. Ela é vestida e está diante de quem reza. A restauração precisava devolver uma imagem firme e reconhecível para os devotos, a mesma que eles conhecem há gerações.
O que a restauração devolveu à imagem
Não uma imagem nova. O Bom Jesus voltou ao santuário com a madeira tratada contra os cupins, as lacunas preenchidas, a policromia limpa e os retoques integrados ao que restava da pintura original. Voltou a tempo de fazer o que sempre fez: ficar diante dos fiéis na festa de agosto.
Ficha técnica
- Obra: imagem do Senhor Bom Jesus da Cana Verde
- Autoria e época: desconhecidas
- Técnica: escultura em madeira policromada
- Local: Santuário do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, Siqueira Campos (PR)
- Solicitante: Província São Lourenço de Brindes (frades capuchinhos), Curitiba (PR)
- Proteção legal: bem não tombado
- Período do restauro: 13 de janeiro a 8 de maio de 2026
- Diagnóstico: ataque de cupins com galerias e lacunas nas pernas, pés e mãos; partes faltantes; desprendimento e perda da policromia; sujidades, fuligem e manchas; pontos escurecidos por excesso de óleo; marcas de retoques anteriores
- Procedimentos: descupinização com perfuração, aplicação de cupinicida e ensacamento; limpeza a seco e úmida com teste de solubilidade; limpeza das galerias; preenchimento com resina e nivelamento; base da policromia; reintegração cromática com tintas de restauro; verniz de proteção
Perguntas frequentes sobre a imagem do Bom Jesus da Cana Verde e o restauro de imagens com cupim
Como saber se uma imagem de santo está com cupim?
Os sinais mais comuns são furinhos na madeira, pó fino perto da base ou embaixo da imagem e áreas que cedem ao toque, com a tinta afundando. O cupim come por dentro e pode deixar a superfície quase intacta. Na dúvida, não aplique produto nem tente tapar os furos: fotografe e procure um restaurador.
Imagem de madeira com cupim tem salvação?
Na maioria dos casos, sim. Primeiro se elimina o inseto, depois a madeira é limpa, as lacunas são preenchidas e a pintura é reintegrada. Quanto antes o ataque é tratado, menos madeira original se perde. A extensão do dano e o caminho mais seguro só se definem num diagnóstico da peça.
O restauro deixa a imagem como nova?
Não, e não deveria. Um restauro sério devolve estabilidade e leitura à imagem, mas preserva a pintura original e as marcas legítimas da idade. Repintar a imagem inteira para "deixar nova" apaga a história da peça e a mão de quem a fez.
Uma imagem restaurada pode voltar à procissão?
Pode, desde que a estrutura tenha sido recuperada e o transporte seja feito com cuidado. Depois do restauro, vale manter a imagem longe de umidade, calor de velas e luz direta, limpar só com espanador macio e seco e fazer inspeções periódicas, para notar cedo qualquer sinal de novo ataque. Reunimos esses cuidados na página de conservação preventiva.
Se a sua paróquia, santuário ou família tem uma imagem com furinhos, pó de madeira ou tinta se soltando, comece por um diagnóstico, antes de qualquer produto ou repintura. O restauro começa no olhar.
Texto de Clayton Caner, arquiteto e restaurador da CANERSTUDIO.
Este trabalho faz parte do serviço de restauração de imagens sacras.
Veja como conduzimos o diagnóstico, o que define o orçamento e outros casos do mesmo tipo. Restauração de imagens sacras



















