Projetos de Restauração

Restauração imagem sacra São Lucas
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Restauração de Ícone com Folha de Ouro: o São Lucas entronado

Esta restauração de ícone com folha de ouro envolveu um São Lucas em têmpera sobre madeira de pinho de Riga, de 33,3 x 46 cm. A douração escurecida não era a do pintor: vinha de um restauro anterior, feito com falso ouro, que oxidou. A pintura tinha destacamentos e craquelamentos; o suporte, rachaduras, pregos e travas comprometidas.

Há uma ironia nessa história. A tradição tem São Lucas como padroeiro dos pintores, e este ícone dele chegou ao ateliê com um ouro que não era ouro, aplicado por uma mão que não era a do pintor.

Diagnóstico: quando o ouro do ícone não é ouro

O sinal mais visível era a douração escura. Ouro verdadeiro não oxida: pode sujar, desgastar, perder-se em lacunas, mas não escurece por oxidação. Quando um dourado escurece assim, a suspeita recai sobre o material. Neste ícone a causa estava identificada: um restauro anterior havia refeito a douração com falso ouro, uma liga metálica que imita o brilho do ouro e, com o tempo, reage com o ar e perde a cor.

O dano não parava no ouro. O diagnóstico registrou comprometimento importante da camada pictórica, com destacamento em algumas áreas e craquelamentos, além de sujidades e perdas de pintura. No suporte, a madeira tinha rachaduras, havia pregos prejudicando o painel, as travas estavam comprometidas e havia sinais de xilófagos.

Como se restaura a folha de ouro de um ícone

A douração é a última pele do ícone, e a mais frágil. Antes de pensar nela, porém, é preciso garantir que a pintura e o painel não estão se soltando por baixo. Ouro novo sobre base instável é ouro perdido.

Neste tipo de obra, nosso procedimento para a folha de ouro inclui as etapas abaixo, ajustadas ao que o diagnóstico de cada peça mostra.

Limpeza da superfície dourada

A limpeza do ouro começa com o mínimo: retirada de poeira e sujidade com meios suaves, testados em áreas pequenas. Vernizes e velaturas sobre o ouro podem ser originais, e um solvente mal escolhido arrasta a folha junto com a sujeira.

Remoção da douração comprometida

Quando a douração está danificada ou é um material estranho à obra que se degradou, como um falso ouro oxidado, ela pode precisar ser retirada com espátula e ferramentas de precisão, para que a base possa ser examinada e tratada.

Reparo da base

Sob a folha há uma preparação. Onde ela falta ou está irregular, recebe massa de preenchimento e é nivelada, porque qualquer desnível aparece no ouro: a folha é tão fina que copia o relevo do que está embaixo.

Assentamento da nova folha e brunimento

A folha é assentada com adesivo próprio para douração, como a cola de pele de coelho usada na técnica tradicional. Depois de seca, pode ser brunida, polida com uma pedra lisa até ganhar brilho e uniformidade.

O ouro vale pelo trabalho, não pelo metal

Cesare Brandi lembrava que até o ouro e as pedras preciosas recebem seu valor do trabalho humano que os emprega, e que não se deve forçar uma pintura antiga a recuperar um brilho fugaz e fictício. O falso ouro deste ícone mostra o risco oposto: uma douração refeita com um material que imitava o brilho, mas não envelhecia como ouro.

A teoria contemporânea acrescenta uma nuance importante para a arte sacra. Num objeto que continua servindo à oração, um novo douramento pode ser legítimo quando a função devocional pede que o ícone seja lido inteiro. A condição é a honestidade do registro: fica documentado o que é original e o que é intervenção.

Retirar um restauro anterior também é decisão, não rotina. Intervenções antigas fazem parte da história da obra e só saem quando desfiguram a imagem ou ameaçam sua conservação, como acontece com um metal que escureceu sobre o dourado.

O que a restauração busca devolver ao ícone

Não um ícone recém-saído da oficina do pintor. Num caso como este, o objetivo é um ícone estável, com a pintura e o painel firmes, em que a douração volte a ser lida como parte da imagem, e não como uma mancha escura sobre ela.

São Lucas, evangelista e padroeiro dos pintores

O ícone representa São Lucas entronado, segurando um livro. Nascido em Antioquia, na Síria, Lucas é autor de um dos Evangelhos. Era médico e provavelmente viajou com São Paulo para a Itália. A tradição medieval o tinha como mártir, mas é provável que tenha morrido de velhice, na Grécia.

Segundo a lenda, Lucas era também pintor e fez diversos retratos da Virgem. Por isso é considerado protetor dos pintores, dos médicos e dos farmacêuticos. Como evangelista, pode ser representado lendo o seu Evangelho, e seu atributo é o touro alado.

Ficha técnica

  • Obra: Ícone de São Lucas
  • Autor: desconhecido
  • Técnica: têmpera sobre madeira (pinho de Riga), com douração
  • Medidas: 33,3 x 46 cm
  • Diagnóstico: sujidades, xilófagos, douração de falso ouro oxidada (de restauro anterior), perda de camada pictórica com destacamentos, craquelamentos, madeira do suporte com rachaduras, pregos prejudicando a madeira, travas comprometidas

Perguntas frequentes sobre restauração de ícone com folha de ouro

Como saber se o dourado de um ícone é ouro verdadeiro?

Um indício é o comportamento com o tempo: ouro verdadeiro não oxida, enquanto ligas que imitam ouro tendem a escurecer ou esverdear. Mas a aparência engana, porque vernizes e sujidades também escurecem o dourado. A confirmação vem do exame do restaurador, que observa a superfície, as bordas das lacunas e, se preciso, faz testes pontuais.

É preciso refazer todo o dourado ou só as partes danificadas?

Na maioria dos casos, só as partes danificadas. O ouro original que está firme é preservado, e as lacunas são reintegradas. A troca integral só se justifica quando a douração existente é estranha à obra e está degradada, ou quando não tem mais aderência. Cada caso depende do diagnóstico.

O dourado restaurado fica com o brilho de ouro recém-aplicado?

Não necessariamente, e nem sempre deveria. A reintegração busca que o ouro novo converse com o antigo, que tem a sua pátina. Um brilho uniforme e intenso demais faria o reparo se destacar e apagaria a idade do ícone. O nível de brilho é combinado com o proprietário, considerando o uso da peça.

Se o dourado de um ícone ou de uma imagem da sua família escureceu ou está se soltando, peça um diagnóstico antes de qualquer limpeza. O restauro começa no olhar.

Texto de Clayton Caner, arquiteto e restaurador da CANERSTUDIO.

Este trabalho faz parte do serviço de restauração de imagens sacras e arte sacra.

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