Projetos de Restauração

Quadro do artista Adélio Sarro antes da conservação e restauração
Estado de conservação da pintura de Adélio Sarro recebida no ateliê
Detalhe da camada pictórica do quadro de Adélio Sarro antes da limpeza
Verso da tela do quadro de Adélio Sarro
Tratamento da tela em mesa de calor durante a restauração do quadro
Planificação da tela na mesa de calor
Remoção de sujidade da superfície da pintura de Adélio Sarro
Remoção de verniz oxidado do quadro
Consolidação da camada pictórica destacada
Sutura de rasgo na tela do quadro
Reintegração cromática de lacuna na pintura de Adélio Sarro
Ajuste de tom na reintegração cromática do quadro
Aplicação de verniz final de proteção sobre a pintura
Quadro de Adélio Sarro após a conservação e restauração

Conservação e Restauração de Quadros: Momentos inesquecíveis, de Adélio Sarro

A conservação e restauração deste quadro de Adélio Sarro, Momentos inesquecíveis, óleo sobre tela de 60 x 50 cm, enfrentou um dano que começou escondido: xilófagos comprometeram o tecido na borda da tela e chegaram à camada pictórica, que se destacava em algumas áreas. A solução foi reentelar com BEVA 371 e linho, em mesa de calor e vácuo.

A borda de uma tela é a parte que ninguém olha. Fica dobrada sobre o chassi, presa por tachas ou grampos, coberta pela moldura. É ali que tela e madeira se tocam, e é ali que a pintura inteira fica pendurada. Quando o dano aparece na frente do quadro, ele já percorreu o caminho de trás.

Diagnóstico do quadro: xilófagos na borda e tinta se soltando

O exame mostrou cinco problemas somados: sujidades, verniz oxidado, rasgos no tecido, perda de camada pictórica e ataque de insetos xilófagos.

O mais grave estava na borda. O tecido enfraquecido nessa faixa perde a capacidade de segurar a tensão que mantém a pintura esticada, e a tela começa a ceder justamente onde é presa. O ataque não ficou no tecido: alcançou a camada pictórica, que apresentava destacamento em algumas áreas. Tinta que se solta não volta sozinha. Cada manuseio pode levar um fragmento embora.

O verniz oxidado era um problema de outra ordem, de leitura e não de sobrevivência. Vernizes de resina natural amarelam e escurecem em poucas décadas e passam a filtrar todas as cores que o pintor escolheu.

Como foi feito o restauro do quadro

A lógica é a de sempre: primeiro garantir que a pintura tenha onde se apoiar, depois cuidar da superfície.

Por que a reentelagem, neste caso

Reentelar é aderir uma segunda tela ao verso da original, para que ela volte a ter força. Até os anos 1970 isso se fazia em quase todo quadro, muitas vezes por precaução; hoje tratamentos locais resolvem boa parte dos casos. Aqui o comprometimento estava na faixa que sustenta a pintura no chassi, somado a rasgos e perdas de tinta. A reentelagem foi a resposta proporcional ao problema.

Linho, BEVA 371, calor e vácuo

O reforço foi feito com linho e BEVA 371, um adesivo termoplástico: amolece com o calor e volta a firmar ao esfriar. Na mesa de calor a obra é aquecida por igual, e o vácuo pressiona a tela original contra o linho de modo uniforme, sem que nenhuma área receba mais força que outra. Adesivos termoplásticos como esse são mais fáceis de remover no futuro do que as antigas reentelagens com cola animal, e isso pesa na escolha. Uma intervenção estrutural não deveria impedir a próxima.

Limpeza e reintegração cromática

Além do tratamento estrutural, a obra recebeu limpeza e reintegração cromática das perdas. Neste tipo de obra, nosso procedimento é deixar essas etapas para depois da estabilização: limpar antes seria trabalhar sobre uma tinta que ainda se solta.

Quando a reentelagem é a intervenção mínima

Intervenção mínima não quer dizer fazer pouco. Quer dizer fazer o necessário e parar aí. A restauradora norte-americana Barbara Appelbaum resumiu o equívoco de tratar o princípio como dogma: "às vezes menos é mais; às vezes menos é só menos".

Neste quadro, um reparo pontual deixaria a borda fraca e a tinta exposta a novos destacamentos. Seria menos intervenção e mais risco. A reentelagem não é rotina no nosso ateliê; é remédio, e só entra quando o diagnóstico pede. Aqui pedia.

O que a conservação e restauração devolveu à obra

A reentelagem devolveu à pintura um suporte firme, e a superfície foi limpa e teve as perdas reintegradas. O quadro não ficou novo. O que se busca é uma obra estável e legível, que guarda as marcas da sua idade.

A partir daqui, o trabalho passa a ser de conservação. Restauração é o tratamento de um dano que já aconteceu; conservação é o cuidado contínuo para que ele não volte. Nenhum tratamento contra insetos impede um novo ataque. O que protege a obra é o ambiente: umidade estável, longe de paredes úmidas e da luz direta, e um olhar periódico para o verso e para as bordas.

Adélio Sarro, o artista

Adélio Sarro Sobrinho nasceu em Andradina (SP), em 1950. Pintor, desenhista e escultor, formou-se de modo autodidata. Começou pela pintura e depois passou a trabalhar baixos-relevos com materiais variados, como cimento e colas diversas. Fez sua primeira exposição individual em 1972, em São Bernardo do Campo, mesmo ano do primeiro prêmio, uma menção honrosa na 20ª Exposição Coletiva da ABPA. Em 1981 expôs em Tóquio, na Japan International Artists Society e na Yamakataia Department Store. Entre 1998 e 2000 realizou monumentos para praças públicas de São Caetano do Sul (SP). As informações biográficas são da Enciclopédia Itaú Cultural.

Ficha técnica

  • Obra: Momentos inesquecíveis
  • Autor: Adélio Sarro
  • Técnica: óleo sobre tela
  • Medidas: 60 x 50 cm
  • Diagnóstico: sujidades, insetos xilófagos, verniz oxidado, rasgos no tecido, perda de camada pictórica; tecido comprometido na borda pelos xilófagos, com destacamento da camada pictórica em algumas áreas
  • Procedimentos: reentelagem com BEVA 371 e linho em mesa de calor e vácuo, limpeza, reintegração cromática

Perguntas frequentes sobre conservação e restauração de quadros

Qual a diferença entre conservação e restauração de quadros?

A restauração trata um dano que já existe: um rasgo, tinta solta, verniz escurecido. A conservação cuida do ambiente e do manuseio para que a obra se degrade o mais devagar possível. As duas andam juntas. Um quadro restaurado e depois mal conservado volta ao ateliê; um quadro bem conservado, às vezes, nem precisa chegar a ele.

O que é reentelagem e quando ela é necessária?

É a adesão de uma tela nova ao verso da original, para reforçar um tecido enfraquecido. Já foi feita em quase todos os quadros; hoje fica reservada aos casos em que tratamentos locais, como a sutura fio a fio ou o reforço só das bordas, não bastam. Quem decide é o diagnóstico, feito com a obra em mãos.

Cupim no chassi pode estragar a pintura?

Pode. Os insetos xilófagos atacam a madeira do chassi e da moldura e, em alguns casos, também o tecido junto a ela, o que enfraquece a tela e pode levar ao desprendimento da tinta. Furos pequenos e pó fino perto do quadro são sinais de alerta. Antes de qualquer tratamento, é preciso verificar se o ataque está ativo.

Se um quadro da sua família mostra tinta se soltando ou sinais de insetos no verso, o primeiro passo é um diagnóstico. O restauro começa no olhar.

Texto de Clayton Caner, arquiteto e restaurador da CANERSTUDIO.

Caner Studio

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