Projetos de Restauração

Mural da Santa Ceia restaurado, pintura a óleo sobre parede de Frei Pedro Bini, em Siqueira Campos (PR)
Frei Pedro Bini diante do mural da Santa Ceia na década de 1950
Mural da Santa Ceia antes do restauro, com craquelê e perdas de camada pictórica
Perdas de camada pictórica no jarro e na toalha da mesa
Perdas de tinta na toalha da mesa do mural da Santa Ceia
Craquelê e perdas no piso em xadrez do mural, onde fica a assinatura de Frei Pedro Bini
Perdas de camada pictórica junto à porta pintada no fundo da cena
Craquelê em placas com bordas levantadas na pintura a óleo sobre parede
Início do faceamento do mural da Santa Ceia, com andaime e áreas de perda
Mural da Santa Ceia com o faceamento aplicado e o andaime montado
Faceamento com papel aplicado sobre a camada pictórica do mural
Faceamento aplicado em módulos sobre a superfície pintada
Clayton Caner no andaime durante a restauração do mural da Santa Ceia
Clayton Caner fazendo a reintegração cromática no mural da Santa Ceia
Retoque a pincel sobre lacuna nivelada no mural
Detalhe do piso e da mesa do mural da Santa Ceia antes do restauro
O mesmo detalhe do mural da Santa Ceia depois do restauro
Piso em xadrez e mesa do mural da Santa Ceia depois da restauração
Cristo e os apóstolos no mural da Santa Ceia depois da restauração

Restauração do mural da Santa Ceia, em Siqueira Campos (PR)

A restauração do mural da Santa Ceia, em Siqueira Campos (PR), salvou uma pintura a óleo sobre parede feita por Frei Pedro Bini na década de 1950 no seminário dos frades capuchinhos, junto ao Santuário do Senhor Bom Jesus da Cana Verde. Com 1,50 m de altura e 3,00 m de largura, o painel chegou com a tinta em craquelê, soltando-se da alvenaria em placas e com perdas extensas, sobretudo na faixa inferior. Ao todo, o trabalho durou de julho a agosto de 2026.

De longe, a cena ainda se lia: Cristo ao centro, os doze apóstolos em volta da mesa em U, o piso em xadrez. De perto, porém, o quadro era outro. A tinta tinha se partido em pequenas placas, muitas com as bordas levantadas, e cada uma que caía levava junto um pedaço da pintura. Em algumas áreas, além disso, bastava um toque para a placa se soltar.

Frei Pedro Bini e o mural da Santa Ceia

A pintura é de Frei Pedro Bini, que a executou diretamente sobre a parede na década de 1950. Uma fotografia da época mostra o frade de hábito diante do mural, de pé sobre um andaime de madeira, com a composição já inteira na parede: a mesa em U, as colunas, as janelas ao fundo e o piso em xadrez que o restauro viria a recompor setenta anos depois. No próprio piso, ele deixou a assinatura, que as perdas de tinta também tinham atingido.

A obra pertence à Província São Lourenço de Brindes, dos frades capuchinhos, e fica no seminário dos freis, vizinho ao Santuário do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, que guarda a imagem do Bom Jesus da Cana Verde, restaurada pela CANERSTUDIO no início de 2026.

Diagnóstico: por que o mural da Santa Ceia se partia

Em pintura mural, a primeira suspeita é sempre a umidade. Aqui, porém, boa parte do problema estava na própria técnica. Frei Pedro Bini usava óleo em excesso nas veladuras, as camadas finas e transparentes que dão profundidade às cores. Esse excesso de óleo, portanto, contrai e endurece de forma desigual ao envelhecer: a película se parte em craquelê e, sobre a alvenaria, perde a aderência.

O levantamento registrou:

  • Desprendimento da camada pictórica, com craquelê em placas e bordas levantadas, sobretudo nas zonas de sombra e na faixa inferior.
  • Perdas de camada pictórica, com a base exposta e o desenho do artista interrompido, como no jarro, na toalha da mesa e no piso em xadrez, onde fica a assinatura do frade.
  • Pontos de escurecimento, também causados pelo excesso de óleo.
  • Sujidades acumuladas, que além disso apagavam a leitura das cores.

Num quadro assim, a ordem das etapas decide tudo. Ou seja, limpar antes de fixar seria arrastar a tinta solta junto com a sujeira.

Como foi feita a restauração do mural da Santa Ceia

Fizemos o trabalho no próprio lugar, sobre andaime, de 6 de julho a 7 de agosto de 2026.

1. Limpeza a seco e limpeza úmida

Primeiro, a sujidade superficial saiu por meio mecânico, sem umidade. Em seguida veio a limpeza úmida, com produtos próprios para conservação, sempre precedida de teste de solubilidade, porque cada área da pintura reage de um jeito.

2. Faceamento da camada pictórica

Para segurar a tinta que se desprendia, a superfície recebeu faceamento: papel aplicado com cola especial para faceamento, em módulos, sobre as áreas em risco. Assim, o papel funciona como uma atadura provisória. Dessa forma, ele mantém cada fragmento no lugar durante o tratamento e evita que a matéria original se perca no manuseio.

3. Nivelamento das lacunas

Onde a pintura tinha se perdido, as lacunas foram niveladas até o plano da superfície pintada. Por isso, o nivelamento devolve a base contínua sobre a qual a cor pode ser reintegrada.

4. Reintegração cromática

Fizemos os retoques com tintas próprias de restauro, restritos às lacunas, sem cobrir a pintura que restou. Com isso, o piso em xadrez, a toalha, o jarro e as vestes dos apóstolos voltaram a ter continuidade, e a cena voltou a ser lida inteira.

5. Proteção final

A superfície recebeu um verniz de proteção próprio para restauro, que protege a pintura contra a umidade e dificulta o desenvolvimento de bolor e outros microrganismos.

6. Moldura

A moldura branca ornamentada que emoldura o painel foi limpa, e os ornamentos receberam acabamento em tinta dourada. Ou seja, é um acabamento da moldura, sem nenhuma interferência na pintura original.

O critério no mural da Santa Ceia: devolver a leitura sem repintar o artista

O manual de conservação de pinturas organizado por Joyce Hill Stoner e Rebecca Rushfield resume a regra que orientou o retoque: "A camada pictórica original deve ser respeitada, sem ser alterada nem ocultada." Por isso a cor nova entrou só onde a antiga tinha caído. Dessa forma, o que restava da mão de Frei Pedro Bini, mesmo marcado pelo tempo, ficou à vista.

O restauro também não tenta corrigir o artista. Afinal, o excesso de óleo faz parte da maneira como ele pintou, e o craquelê fino que permanece nas áreas estáveis é marca legítima de idade, não um defeito a esconder. Em suma, o objetivo era deter a perda e devolver a leitura, não fazer uma Santa Ceia nova.

O que a restauração devolveu ao mural da Santa Ceia

Finalmente, a pintura voltou a ficar presa à parede, com as lacunas integradas e a superfície protegida. Além disso, a comunidade recuperou uma cena que conhece há gerações, e os freis recuperaram um documento da sua própria história: a obra que Frei Pedro Bini pintou com as próprias mãos, como mostra a fotografia dos anos 1950.

Ficha técnica do mural da Santa Ceia

  • Obra: Santa Ceia
  • Autoria: Frei Pedro Bini
  • Data: década de 1950
  • Técnica: pintura a óleo sobre parede (pintura mural)
  • Dimensões: 1,50 m × 3,00 m
  • Local: seminário dos frades capuchinhos, junto ao Santuário do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, Siqueira Campos (PR)
  • Proprietário: Província São Lourenço de Brindes, Curitiba (PR)
  • Período do restauro: 6 de julho a 7 de agosto de 2026
  • Diagnóstico: desprendimento da camada pictórica com craquelê em placas; perdas de camada pictórica; escurecimentos por excesso de óleo; sujidades
  • Procedimentos: limpeza mecânica a seco e limpeza úmida com teste de solubilidade; faceamento com papel e cola especial; nivelamento das lacunas; reintegração cromática com tintas de restauro; verniz de proteção próprio para restauro; limpeza da moldura e acabamento dourado dos ornamentos

Perguntas frequentes sobre o mural da Santa Ceia e o restauro de pintura mural

Por que a pintura a óleo na parede craquela e solta?

O óleo forma uma película que, com o tempo, endurece e perde elasticidade. Por isso, quando o pintor usa óleo em excesso, essa película se contrai de forma desigual e se parte em craquelê. Sobre parede, ela ainda depende da aderência à alvenaria: se a umidade ou o próprio envelhecimento enfraquecem essa ligação, as placas levantam e caem.

O que é faceamento na restauração de mural?

É a aplicação de papel com um adesivo provisório sobre a superfície da pintura, nas áreas em que a tinta está se soltando. O papel segura os fragmentos enquanto o restaurador trabalha e depois é retirado. Assim, é a forma de não perder a matéria original durante o tratamento.

Dá para restaurar um mural sem tirá-lo da parede?

Na maioria dos casos, sim, e é o caminho preferível. Por exemplo, a Santa Ceia foi tratada inteira no próprio lugar, sobre andaime. Retirar uma pintura da parede é a intervenção mais radical que existe e só se justifica quando a permanência ali ameaça a sobrevivência da obra.

Como cuidar de um mural depois do restauro?

Em primeiro lugar, evitar oscilações bruscas de umidade e temperatura, verificar periodicamente a parede e o telhado, manter a pintura longe de sol direto e de fontes de calor e limpar só com espanador macio e seco. Antes de qualquer reforma ou pintura na parede vizinha, também é preciso consultar o restaurador. Além disso, reunimos esses cuidados na página de conservação preventiva.

Se a sua igreja, capela ou casa tem um mural com a tinta craquelando ou soltando em placas, comece por um diagnóstico, antes de qualquer retoque ou repintura. Veja também como tratamos o mural da Capela da Santíssima Trindade, em Botucatu. O restauro começa no olhar.

Texto de Clayton Caner, arquiteto e restaurador da CANERSTUDIO.

Este trabalho faz parte do serviço de restauração de igrejas, capelas e pintura mural.

Veja como conduzimos o diagnóstico, o que define o orçamento e outros casos do mesmo tipo. Restauração de pintura mural e forros

CANERSTUDIO

Envie fotos da sua obra. Quem responde é o Clayton.

    Ao enviar, você concorda com a nossa Política de Privacidade.

    Precisa de ajuda? Converse Conosco