Restauro de esculturas: Sarasvati, a deusa da sabedoria e das artes
Este restauro de esculturas tratou uma imagem de Sarasvati que já tinha passado por uma restauração anterior. A camada de folha de ouro, um falso ouro, estava oxidada, e havia partes com ferrugem. A escultura foi limpa, recebeu novas folhas de ouro e, por fim, uma pátina de envelhecimento.
Toda obra que já foi restaurada carrega duas histórias: a dela e a de quem mexeu nela antes. Esta Sarasvati chegou assim, já restaurada uma vez e com o douramento escurecido.
Diagnóstico da escultura: falso ouro oxidado e ferrugem
O dano mais visível estava no douramento. A folha que cobria a escultura era um falso ouro, uma folha metálica de imitação, e tinha oxidado. O ouro verdadeiro não oxida; as ligas usadas para imitá-lo escurecem e mancham com o tempo, e a superfície perde a cor dourada justamente onde ela mais importa.
A ferrugem era o segundo problema. Havia partes com ferrugem, e a corrosão do ferro não para sozinha: com umidade, avança e pode manchar ou romper o que está em volta.
Quando a peça já passou por uma restauração, isso pesa no diagnóstico. Numa escultura assim, parte do que se vê na superfície pode ser intervenção, e não obra. Separar uma coisa da outra vem antes de qualquer limpeza.
Como foi feito o restauro da escultura
A sequência foi a de qualquer douramento bem feito: primeiro uma superfície limpa, depois o ouro, por último o acabamento.
Limpeza de sujidades, folheação oxidada e ferrugem
A escultura foi limpa para retirar as sujidades, os restos da folheação antiga já oxidada e a ferrugem das partes atingidas. Folha nova sobre folha oxidada, ou sobre ferrugem ativa, repetiria o problema por baixo do ouro.
Aplicação das novas folhas de ouro
Com a superfície limpa, foram aplicadas novas folhas de ouro.
Pátina de envelhecimento
Por fim, a escultura recebeu uma pátina para o envelhecimento. Ela tira do douramento novo o brilho de peça recém-saída da oficina e o aproxima da idade da escultura.
Critério: redourar sem prometer o brilho do primeiro dia
Redourar uma escultura é uma escolha, não uma revelação. Cesare Brandi advertia que, assim como não se deve polir de novo uma estátua, não se deve forçar uma pintura antiga a recuperar o brilho que tinha, quando o tinha. O espanhol Salvador Muñoz Viñas foi além: "o restauro não torna um objeto mais verdadeiro do que era antes, apenas mais fiel às nossas expectativas".
Nesta Sarasvati, o falso ouro oxidado não servia mais à leitura da imagem: uma deusa coberta de ouro aparecia manchada e escura. A nova folha devolve a leitura dourada, e a pátina impede que essa leitura venha com cara de objeto novo. É um meio-termo que assumimos com clareza. Em qualquer redouramento, o que é douramento novo deve ficar registrado como intervenção, para que quem examinar a peça no futuro saiba o que encontrou.
O que o restauro devolveu à escultura
Uma superfície dourada contínua outra vez, sem as manchas da oxidação e sem a ferrugem, com uma pátina que impede a peça de parecer recém-fabricada. Não é a Sarasvati do dia em que foi feita. É a mesma escultura, com mais uma camada na sua história.
Quem é Sarasvati
Sarasvati é a deusa hindu da sabedoria, das artes e da música, e a shakti, ao mesmo tempo poder e esposa, de Brahma, o criador do mundo. É venerada por hindus e budistas. Protege pintores, músicos, atores, escritores e artistas, e também os que buscam conhecimento: estudantes e professores.
É representada como uma bela mulher de pele branca como leite, tocando um instrumento musical, a vina. Seus símbolos são o cisne e o lótus branco. Para um ateliê que vive de arte, restaurar a protetora dos artistas tem um sabor particular.
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Ficha técnica
- Obra: escultura de Sarasvati
- Diagnóstico: restauração anterior; folha de ouro de imitação (falso ouro) oxidada; sujidades; partes com ferrugem
- Procedimentos: limpeza de sujidades, restos de folheação oxidada e ferrugem; aplicação de novas folhas de ouro; pátina de envelhecimento
Perguntas frequentes sobre restauro de esculturas
Folha de ouro escurecida tem conserto?
Depende do que escureceu. Ouro verdadeiro não oxida; o que escurece costuma ser sujidade, verniz envelhecido ou folha de imitação feita de ligas metálicas. Sujidade e verniz podem ser limpos, sempre com testes prévios. Folha de imitação oxidada em geral precisa ser removida e refeita. Só o exame da peça diz qual é o caso.
Por que aplicar pátina numa escultura restaurada?
Para que a área tratada converse com a idade da peça. Um douramento ou uma reintegração com brilho de novo se destaca do resto e muda a leitura da obra. A pátina harmoniza a intervenção com o conjunto. Ela não serve para esconder o que foi feito: a intervenção continua documentada no relatório do restauro.
Escultura com partes enferrujadas pode ser restaurada?
Sim, e quanto antes, melhor. A ferrugem avança com a umidade e pode manchar ou romper os materiais em volta. O tratamento começa pela remoção dos produtos de corrosão e segue com a estabilização e a proteção do metal. Depois, manter a peça longe de umidade é o que evita que o problema volte.
Se você tem uma escultura com douramento escurecido, manchas ou ferrugem, comece por um diagnóstico. O restauro começa no olhar.
Texto de Clayton Caner, arquiteto e restaurador da CANERSTUDIO.
Este trabalho faz parte do serviço de restauração de imaginária, esculturas e talha.
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