Restauração de Arte Sacra: o Cristo da Igreja Matriz de Ubatuba
A restauração de arte sacra deste Cristo em madeira policromada, da Igreja Matriz de Ubatuba, começou por um problema de estrutura: a escultura estava gravemente deteriorada por ataque de insetos xilófagos. Desmontamos a peça, fizemos a desinfestação e a estabilização da madeira, recompusemos as partes e a policromia e terminamos com douramento e verniz de proteção.
Os xilófagos estão entre as ameaças mais sérias para uma escultura de madeira justamente porque trabalham por dentro. A superfície pode continuar parecendo inteira enquanto a estrutura já cedeu. E este Cristo não é peça de museu: pertence a uma igreja matriz.
Diagnóstico: arte sacra em madeira atacada por xilófagos
O ataque de insetos foi o dano que definiu todo o resto do trabalho. As larvas se alimentam da madeira quase até a superfície; em infestações intensas, como descreve o manual de conservação de madeira de Unger, Schniewind e Unger, resta apenas uma fina camada superficial. Por fora, alguns furos. Por dentro, galerias e pó.
Há outro complicador. O ciclo desses insetos é oculto, e por isso não basta ver furos para saber se o ataque continua. Furos antigos costumam ter a borda acinzentada pela poeira; atividade recente se reconhece por pó fresco e borda clara. Antes de tratar, é preciso saber o que se está tratando.
Como foi feita a restauração do Cristo
Nessa obra, a ordem das etapas não era negociável: antes de qualquer cor, a madeira. Pintar ou dourar uma peça que continua sendo comida por dentro é gastar trabalho numa superfície sem chão.
Análise e desmontagem
O trabalho começou pela avaliação dos danos e pela desmontagem cuidadosa da escultura. Separar as partes permite ver encaixes e áreas internas que, com a peça montada, ficam fora de alcance, e tratar cada uma conforme o estado em que se encontra.
Desinfestação e estabilização da madeira
Em seguida, a madeira passou por desinfestação e estabilização. O objetivo é duplo: interromper o ataque e devolver à madeira a capacidade de sustentar a escultura. A escolha do método depende da peça. Já em 2001 a literatura técnica apontava os métodos físicos e as atmosferas sem oxigênio como mais adequados para bens culturais do que os produtos líquidos, que deixam resíduos e podem atacar a preparação, o douramento e os pigmentos.
Recomposição das partes e da policromia
Com a estrutura firme, as partes foram recompostas e a camada de pintura foi recuperada com pigmentos compatíveis com os originais. Numa imagem de culto, a policromia é o que a comunidade reconhece como "o Cristo dela": o tom da carnação, o desenho do rosto, as vestes.
Douramento e proteção final
Por último, aplicamos folha de ouro e a camada final de verniz de proteção. O verniz protege, mas também envelhece, e poderá ser renovado por outro restaurador no futuro sem prejuízo para a imagem.
Uma imagem de culto não se restaura como peça de museu
O critério que orientou este trabalho vem da teoria contemporânea do restauro. A teoria clássica, a de Cesare Brandi, foi pensada sobretudo para obras de museu, onde o valor histórico e o estético decidem quase tudo. Quem trabalha com arte sacra em uso sabe que uma imagem de devoção tem também um valor espiritual, e que ele conta.
O espanhol Salvador Muñoz Viñas formulou o dilema com precisão: "a intervenção mínima necessária para tornar uma escultura apta ao culto religioso pode ser muito diferente da intervenção mínima necessária para preservar seu valor documental". Um Cristo que volta para a igreja precisa ser lido inteiro pelos fiéis. Por isso, numa imagem em uso, o grau de reintegração da pintura e do ouro é decidido com quem cuida dela.
O que não muda, em nenhum caso, é o registro. Fica documentado o que é original e o que é intervenção, para que quem vier depois saiba exatamente onde entramos.
O que a restauração devolveu ao Cristo de Ubatuba
Não uma imagem nova. Uma imagem firme outra vez, com a madeira estabilizada e a policromia legível, pronta para continuar presente para a comunidade de Ubatuba. As marcas de uso que fazem parte da história de uma imagem de devoção não são defeitos a apagar.
Nenhum tratamento contra insetos impede um novo ataque. O que protege a imagem daqui para frente é o ambiente: umidade sob controle, inspeção periódica e atenção a qualquer pó fino ou furo novo na madeira.
Ficha técnica
- Obra: Cristo
- Técnica: escultura em madeira policromada
- Local: Igreja Matriz de Ubatuba (SP)
- Diagnóstico: deterioração grave por ataque de insetos xilófagos, com comprometimento da madeira e da policromia
- Procedimentos: análise e desmontagem, desinfestação e estabilização da madeira, recomposição das partes, recuperação da policromia com pigmentos compatíveis, aplicação de folha de ouro, verniz de proteção
Perguntas frequentes sobre restauração de arte sacra
Como saber se o cupim ou o caruncho de uma imagem ainda está ativo?
Furos sozinhos não dizem muito. Furos antigos tendem a ter borda cinzenta, coberta de poeira; atividade recente costuma deixar pó claro e fresco perto dos furos e bordas limpas. Como o inseto vive dentro da madeira, a confirmação exige exame atento e, às vezes, um período de observação. Só depois disso se escolhe o tratamento.
Quem decide como a imagem da igreja vai ficar depois do restauro?
A decisão é compartilhada. O restaurador apresenta o diagnóstico, as alternativas e o que cada uma preserva ou sacrifica; a paróquia ou a irmandade diz o que a imagem significa para a comunidade. Questões técnicas, como materiais e métodos, cabem ao restaurador. O grau de reintegração é combinado e fica registrado.
Depois de desinfestada, a madeira fica protegida para sempre?
Não. Os tratamentos de desinfestação eliminam o ataque presente, mas não impedem que novos insetos cheguem. O que reduz o risco é o ambiente: umidade controlada, limpeza, ventilação e inspeção periódica da peça e do mobiliário de madeira ao redor, que pode abrigar focos.
Se a sua paróquia tem uma imagem com furos, pó ou partes soltas, o primeiro passo é um diagnóstico. O restauro começa no olhar.
Texto de Clayton Caner, arquiteto e restaurador da CANERSTUDIO.
Este trabalho faz parte do serviço de restauração de imagens sacras e arte sacra.
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