Projetos de Restauração

Cristo Crucificado em jacarandá-da-Bahia antes do restauro
Escultura sacra desidratada com partes faltantes recebida no ateliê
Detalhe das partes faltantes do Cristo Crucificado em jacarandá
Sujidade acumulada na superfície da escultura em jacarandá
Estado da madeira desidratada antes da intervenção
Reintegração das partes faltantes da escultura sacra
Modelagem das lacunas do Cristo Crucificado
Hidratação e consolidação da madeira jacarandá-da-Bahia
Detalhe do tratamento da madeira da escultura
Reintegração cromática das áreas recompostas
Ajuste de tom sobre o jacarandá restaurado
Detalhe do rosto do Cristo Crucificado após o restauro
Detalhe das mãos do Cristo Crucificado restaurado
Escultura de Cristo Crucificado em jacarandá após o restauro
Antes e depois do restauro do Cristo Crucificado
Cristo Crucificado em jacarandá-da-Bahia finalizado

Restauro de obras sacras: Cristo Crucificado em jacarandá-da-Bahia

Este restauro de obras sacras recebeu um Cristo Crucificado esculpido em jacarandá-da-Bahia, severamente desidratado, sujo e com partes faltantes, entre elas dedos quebrados. Reconstruímos as partes perdidas com pinos do mesmo jacarandá e entalhe guiado pela anatomia da escultura, fizemos a limpeza mecânica, hidratamos a madeira e aplicamos uma camada de cera.

Dedos são as partes mais finas e salientes de uma escultura em madeira. São também, quase sempre, as primeiras a se perder. Num crucifixo, onde as mãos abertas fazem parte do que a imagem diz, essa perda pesa mais.

Diagnóstico da obra sacra: madeira desidratada e partes faltantes

O Cristo chegou ao ateliê com várias avarias: a madeira severamente desidratada, sujidade acumulada e partes faltantes. Entre as perdas estavam dedos quebrados.

A desidratação não é só uma questão de aparência. A madeira troca umidade com o ar o tempo todo. Quando perde água demais, ela contrai, e a perda de umidade está entre as causas de fendas e rachaduras de secagem em esculturas. O jacarandá-da-Bahia é duro e denso, o que permite um entalhe fino, mas nenhuma madeira está protegida de um ambiente seco demais.

Como foi feito o restauro do Cristo Crucificado

A ordem do trabalho foi da forma para a matéria: primeiro completar a escultura, depois limpar e tratar a madeira como um todo.

Reconstrução das partes faltantes

Começamos pelas perdas. Os dedos quebrados foram reconstruídos com pinos do mesmo jacarandá, e a peça foi entalhada seguindo a anatomia da própria escultura, para que as partes refeitas assumissem o estilo e o formato da concepção do artista.

Limpeza mecânica

Depois veio a limpeza mecânica completa da peça, isto é, feita por meios físicos, para retirar a sujidade acumulada na superfície e nos detalhes do entalhe.

Hidratação da madeira e proteção com cera

A madeira foi hidratada com óleos especiais. Por fim, a escultura recebeu uma camada de cera para proteção.

Critério: reconstruir só até onde a escultura mostra o caminho

Reconstruir é a decisão mais delicada de um restauro de imagem sacra. Chris Caple e Emily Williams, num manual de conservação de 2023, escrevem que as ações de restauro "devem basear-se em evidências e parar no ponto em que começa a imaginação".

Num crucifixo, a evidência costuma estar na própria escultura: os dedos que sobraram, a proporção do corpo, o modo como o artista resolveu articulações e tendões. Dedos podem ser reconstruídos porque a anatomia da peça diz como eram. Um rosto perdido, não. Ali, qualquer reconstrução seria uma invenção com a assinatura de outro.

A escolha do mesmo jacarandá tem uma vantagem técnica: madeira da mesma espécie reage à umidade de modo parecido com a da obra, e o reparo acompanha os movimentos da escultura. Tem também uma consequência: a parte refeita se aproxima muito da obra. Em imagens de devoção, a teoria contemporânea aceita reintegrações discretas quando a função religiosa pede, desde que tudo fique documentado. Por isso, numa obra sacra, o registro do que foi refeito é parte do trabalho, e não um detalhe.

O que o restauro devolveu ao Cristo

Os dedos refeitos, a madeira limpa e hidratada, a superfície protegida. A imagem voltou a ser lida inteira, sem deixar de ser uma escultura com história. Para ver outro Cristo restaurado no ateliê, desta vez em madeira policromada, veja a restauração do Cristo da Igreja Matriz de Ubatuba.

O jacarandá-da-Bahia

O jacarandá-da-Bahia, conhecido fora do país como Brazilian Rosewood, é uma madeira nobre encontrada sobretudo no Brasil, em especial na Bahia e em Minas Gerais. Tem cor marrom-avermelhada escura, veios que podem ser ondulados ou retos, dureza, densidade e resistência altas, brilho natural e um aroma adocicado, parecido com o de chocolate.

Foi muito usado no período colonial brasileiro na fabricação de móveis e objetos, e virou símbolo de riqueza e sofisticação. Também é valorizado em instrumentos musicais. A exploração excessiva colocou a espécie em risco de extinção, e hoje o seu comércio é rigorosamente regulamentado. Restaurar uma escultura nessa madeira é também preservar um pedaço dessa história.

Ficha técnica

  • Obra: Cristo Crucificado
  • Técnica: escultura em jacarandá-da-Bahia
  • Diagnóstico: madeira severamente desidratada; sujidade; partes faltantes, entre elas dedos quebrados
  • Procedimentos: reconstrução dos dedos com pinos do mesmo jacarandá; entalhe das partes refeitas seguindo a anatomia da escultura; limpeza mecânica; hidratação da madeira com óleos; camada de cera de proteção

Perguntas frequentes sobre restauro de obras sacras

Restaurar uma imagem sacra tira o valor devocional dela?

Não, quando o restauro é pensado junto com quem venera a imagem. A teoria contemporânea reconhece o valor devocional como parte do patrimônio, e a intervenção numa imagem de culto pode ser diferente da que se faria numa peça de museu. O que não muda é o registro do que é original e do que é intervenção.

Por que a madeira de uma imagem resseca?

Porque a madeira troca umidade com o ambiente. Ar muito seco, sol direto, lâmpadas quentes e aparelhos de ar-condicionado próximos fazem a peça perder água, e isso pode abrir fendas e soltar encaixes. O ressecamento acontece devagar e costuma ser percebido tarde, quando a superfície já perdeu o aspecto ou a madeira já trincou.

Dá para usar jacarandá-da-Bahia num restauro, se o comércio é regulamentado?

Dá, desde que a madeira tenha origem legal. Como o comércio da espécie é rigorosamente regulamentado, o restauro costuma trabalhar com madeira de reaproveitamento ou de estoque com procedência comprovada. Para reparos pequenos, como dedos e encaixes, a quantidade necessária é mínima. A origem do material usado deve constar no registro do restauro.

Se você tem uma imagem sacra com partes quebradas, ressecada ou escurecida, comece por um diagnóstico. Preserve a obra sem apagar a sua história.

Texto de Clayton Caner, arquiteto e restaurador da CANERSTUDIO.

Este trabalho faz parte do serviço de restauração de imagens sacras e arte sacra.

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