Restauração de altar: o altar da capela da Fazenda São Caetano
O altar da capela da Fazenda São Caetano, em Bragança Paulista, chegou em partes. A restauração de altar começou pela análise das peças desmontadas que o proprietário havia adquirido: faltavam partes, e um ataque severo de insetos xilófagos comprometia a estrutura dos pilares laterais. O retábulo central não existia, e foi refeito com madeira antiga da própria fazenda.
Um altar desmontado é um quebra-cabeça com peças a menos. Antes de montar, é preciso saber quais peças ainda aguentam o peso que vão carregar.
Diagnóstico do altar: xilófagos nos pilares e partes perdidas
A avaliação das peças mostrou dois problemas de natureza diferente. O primeiro era estrutural: o ataque de insetos xilófagos tinha comprometido os pilares laterais, justamente as peças que sustentam o conjunto. O segundo era de lacuna: havia partes faltantes, a camada pictórica tinha perdas e o altar não continha o retábulo central.
O ataque de xilófagos engana porque acontece por dentro. As larvas se alimentam quase até a superfície, e em infestações intensas resta só uma película fina de madeira sobre um interior esfarelado. Um pilar pode parecer inteiro e já não sustentar nada. Por isso, numa peça de madeira desmontada, cada parte precisa ser avaliada antes de voltar ao lugar.
Como foi feita a restauração do altar
Montar antes de estabilizar seria esconder o problema dentro do altar. A ordem do trabalho seguiu essa regra.
Descupinização e recuperação das madeiras
As peças passaram por descupinização, e as madeiras danificadas pelo ataque dos insetos foram recuperadas antes de qualquer montagem. Nenhum tratamento desse tipo impede um novo ataque. O que protege o altar daqui em diante é o ambiente onde ele está.
Montagem e entalhe das partes perdidas
Com a madeira tratada, começou a montagem das partes. As partes perdidas foram esculpidas em madeira e incorporadas ao conjunto, para que o altar voltasse a ter continuidade estrutural e de leitura.
Retábulo central em madeira antiga de reuso
O altar não tinha o retábulo central. Ele foi feito com madeiras antigas da própria fazenda, provenientes de reuso, de acordo com o compromisso do ateliê com o uso sustentável da madeira no restauro. Há nisso também um sentido de lugar: o altar, que veio de fora, passa a ter no centro uma peça feita da matéria da fazenda que o recebeu.
Retoques, cera microcristalina e polimento
Por fim, foram feitos os retoques nas áreas em que faltava camada pictórica, e o altar recebeu cera microcristalina e polimento para proteção.
Critério: completar uma lacuna sem inventar o que se perdeu
Uma parte faltante num altar é uma lacuna, e a lacuna pede critério antes de ferramenta. Cesare Brandi, numa passagem que a historiadora Orietta Rossi Pinelli reproduz, escreveu que, numa lacuna, "o mais grave não é o que falta, mas o que se insere indevidamente": a falha se impõe ao olhar como uma forma estranha à imagem. E Brandi exigia que essa unidade fosse recuperada sem cometer falsificação, isto é, sem inventar o que se perdeu.
O retábulo central é o caso mais claro. Quando não se sabe como era a parte perdida, refazê-la "como era" seria inventar e apresentar a invenção como antiga. A alternativa honesta é completar o que a estrutura e a leitura do conjunto pedem, com um elemento que assume a própria origem. Um retábulo feito com madeira de reuso da fazenda tem procedência conhecida e uma história que pode ser contada.
Há um precedente brasileiro conhecido. Na restauração da Igreja de Santa Teresa, hoje Museu de Arte Sacra da UFBA, em Salvador, a equipe de João José Rescala fez as partes novas do Altar do Transepto em madeira crua encerada, distintas das partes antigas douradas, deixando as perdas em evidência em vez de disfarçá-las. É a mesma lógica que defendemos: o novo completa, mas não se faz passar pelo antigo.
O que a restauração devolveu ao altar
Um altar montado e de pé, com os pilares laterais recuperados, as partes perdidas refeitas em madeira, os retoques nas perdas da camada pictórica e um retábulo central que as peças recebidas não tinham. A cera protege a superfície sem prometer eternidade: é um acabamento que envelhece e pode ser renovado.
O altar está na capela da fazenda. Veja a restauração da capela da Fazenda São Caetano e o trabalho no conjunto da Fazenda São Caetano.
Ficha técnica
- Obra: altar da capela da Fazenda São Caetano
- Técnica: madeira com camada pictórica
- Local: capela da Fazenda São Caetano, Bragança Paulista (SP)
- Diagnóstico: peças desmontadas; partes faltantes; ataque severo de insetos xilófagos, com comprometimento estrutural dos pilares laterais; ausência do retábulo central; perdas de camada pictórica
- Procedimentos: descupinização; recuperação das madeiras danificadas; montagem; entalhe das partes perdidas; novo retábulo central em madeira antiga de reuso da fazenda; retoques da camada pictórica; cera microcristalina e polimento
Perguntas frequentes sobre restauração de altar
Um altar desmontado pode ser remontado?
Pode, e é mais comum do que parece. Antes de remontar, cada peça é avaliada e tratada, e a posição de cada uma é estudada pelas marcas de encaixe, pelos furos e pelo desgaste. Peças comprometidas por insetos recebem reforço; as que faltam pedem critério antes de serem refeitas. Remontar sem tratar a madeira é fechar o problema dentro do altar.
É possível refazer partes perdidas de um altar de talha?
Sim, quando há base para isso. Ornamentos que se repetem, como frisos, molduras e volutas, podem ser refeitos a partir das partes que sobreviveram. Quando não há referência de como era a parte perdida, o honesto é não inventar: completar o necessário para a estrutura e a leitura do conjunto, com material identificável e registro do que é novo.
Quanto tempo dura a restauração de um altar?
Nenhuma restauração é definitiva. Acabamentos envelhecem, e a madeira continua reagindo à umidade e à temperatura do lugar. Um altar bem restaurado e mantido num ambiente estável, com inspeção periódica contra insetos, pode passar muitos anos sem nova intervenção de vulto. O que mais encurta essa vida é o descuido com o ambiente.
Se você tem um altar desmontado, guardado em partes ou com sinais de insetos, comece por um diagnóstico das peças. O restauro começa no olhar.
Texto de Clayton Caner, arquiteto e restaurador da CANERSTUDIO.
Este trabalho faz parte do serviço de restauração de igrejas, capelas e pintura mural.
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