Restauração de Igrejas: Igreja Nossa Senhora do Rosário, Bragança Paulista
Poucos casos de restauração de igrejas ensinam tanto quanto o da Igreja Nossa Senhora do Rosário, em Bragança Paulista. Em 2010, a Defesa Civil interditou o templo porque partes do reboco da cúpula, feito nos anos 1980 com cimento na fórmula, se desprendiam. Em 2011, foi contratada a equipe da Oficina de Restauro Bragança.
O que se soltou da cúpula não foi a obra de 1932. Foi o reboco aplicado nos anos 1980. É uma história que se repete em edifícios antigos, e das mais instrutivas: um remendo mal escolhido envelhece pior do que a obra que ele deveria proteger.
Diagnóstico: por que o reboco da cúpula se soltou
O reboco aplicado na cúpula durante a intervenção dos anos 1980 continha cimento na fórmula e não aderiu de forma adequada. Com o tempo, partes desse reboco se desprenderam, e o desplacamento levou à interdição em 2010.
A década de 1980 já tinha sido difícil para o edifício. O vazamento de um duto da rede pública provocou um problema estrutural que abalou uma das laterais da igreja e levou a uma rodada de restaurações. A restauração de uma igreja quase nunca trata um dano isolado: trata uma sequência de acontecimentos e de intervenções, e cada um deixa marcas que precisam ser lidas.
A restauração de igrejas começa pela história do edifício
Antes de definir qualquer intervenção, é preciso saber o que cada parte da igreja é, quando foi feita e por quem. Na Igreja do Rosário, essa história tem cinco momentos bem documentados.
1929–1932: projeto e construção
A igreja foi projetada pelo arquiteto Amador Cintra do Prado. A pedra fundamental foi assentada em julho de 1929, e a inauguração aconteceu em 5 de setembro de 1932.
1938–1941: as pinturas murais de Salvatore Ligabue
Em 1938, o artista plástico Salvatore Ligabue foi contratado para pintar a igreja. Trabalhou por três anos e concluiu as pinturas murais em 1941.
Anos 1980: o dano estrutural e as obras de Bruno de Giusti
Depois do vazamento que abalou a lateral do edifício, o pintor italiano Bruno de Giusti foi contratado para as restaurações e para pintar a Santa Ceia da Capela do Santíssimo. Também nos anos 1980 foi executado o reboco da cúpula, com cimento na fórmula.
2010: a interdição
O desplacamento do reboco da cúpula levou a Defesa Civil a interditar a igreja.
2011: a contratação do restauro
Foi contratada a equipe da Oficina de Restauro Bragança.
O critério: uma igreja com várias camadas de história
A Igreja do Rosário guarda pelo menos três tempos: a arquitetura de Cintra do Prado, as pinturas de Ligabue e as intervenções de Bruno de Giusti, entre elas uma pintura nova, a Santa Ceia. Restaurar não é escolher o "momento verdadeiro" e apagar os outros. Cesare Brandi defendia que o restauro deve recuperar a unidade da obra sem cometer falsificação e "sem apagar todo traço da passagem da obra no tempo". A Santa Ceia dos anos 1980 é parte dessa passagem, tanto quanto as pinturas de 1941.
O reboco com cimento ensina a outra metade do critério. Nem tudo o que foi acrescentado merece ficar. Um reboco que não aderiu e se desprendeu a ponto de interditar a igreja é dano, não camada histórica. A diferença se decide caso a caso, com diagnóstico.
Há ainda a comunidade. A Igreja do Rosário é patrimônio tombado e também um lugar de culto. A teoria contemporânea do restauro trata esses valores espirituais como parte do patrimônio, e uma igreja interditada é uma comunidade sem o seu lugar de oração.
O que uma restauração como esta precisa devolver
Segurança, antes de tudo: uma cúpula que não ameace quem está embaixo. Depois, compatibilidade: materiais que trabalhem com o edifício de 1932, e não contra ele. E, por fim, a leitura do conjunto, com as pinturas de Ligabue e de Bruno de Giusti preservadas como capítulos da mesma história.
Ficha técnica
- Obra: Igreja Nossa Senhora do Rosário
- Local: Bragança Paulista (SP)
- Projeto arquitetônico: Amador Cintra do Prado
- Construção: pedra fundamental em julho de 1929; inauguração em 5 de setembro de 1932
- Pinturas murais: Salvatore Ligabue, 1938–1941
- Intervenção dos anos 1980: restaurações e pintura da Santa Ceia na Capela do Santíssimo, por Bruno de Giusti
- Proteção: tombada em 28 de dezembro de 2000 pelo CONDEPHAC de Bragança Paulista, decreto nº 11304
- Diagnóstico: desplacamento do reboco da cúpula executado nos anos 1980, com cimento na fórmula e aderência inadequada; dano estrutural anterior numa lateral, causado por vazamento de duto da rede pública; interdição pela Defesa Civil em 2010
- Equipe contratada: Oficina de Restauro Bragança, em 2011
Perguntas frequentes sobre restauração de igrejas
Igreja tombada pode ser restaurada?
Pode e, muitas vezes, precisa ser. O tombamento não proíbe o restauro: exige que o projeto seja aprovado pelo órgão de proteção responsável, municipal, estadual ou federal, antes do início da obra. O processo pede diagnóstico, levantamento e uma proposta de intervenção que justifique cada decisão técnica.
Por que reboco com cimento é um problema em igreja antiga?
Argamassas de cimento costumam ser mais rígidas e menos permeáveis que as argamassas tradicionais dos edifícios antigos. A diferença de comportamento entre os materiais favorece fissuras, retenção de umidade e perda de aderência, como no desplacamento de rebocos. A escolha da argamassa de reparo depende do diagnóstico do edifício.
Quem participa da restauração de uma igreja?
Depende da obra, mas raramente é um profissional só. Arquitetos, engenheiros, restauradores, historiadores e conservadores costumam trabalhar juntos, porque estrutura, cobertura, alvenaria, pintura e acervo se influenciam. A paróquia e a comunidade também participam, já que são elas que usam e conhecem o edifício.
Pinturas de épocas diferentes na mesma igreja: qual preservar?
Em geral, todas as que fazem parte da história do edifício. Uma pintura acrescentada décadas depois da construção também é um documento da vida da igreja. A decisão de remover alguma camada exige estudo, registro e justificativa, e só se sustenta quando a camada causa dano ou impede a leitura do conjunto.
Se a sua igreja mostra fissuras, reboco se soltando ou pinturas manchadas, o primeiro passo é um diagnóstico do edifício inteiro. Preserve a obra sem apagar a sua história.
Texto de Clayton Caner, arquiteto e restaurador da CANERSTUDIO.
Este trabalho faz parte do serviço de restauração de igrejas, capelas e pintura mural.
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