Para limpar uma imagem de santo sem estragar, use só um pincel macio e seco, com a peça apoiada pela base, e tire a poeira de cima para baixo. Água, álcool, alvejante, produtos de limpeza, soprador, aspirador de pó e qualquer tinta ficam de fora. Se a pintura estiver levantando, se houver pó fino saindo da madeira ou partes soltas, não limpe: a imagem precisa de um restaurador.
Muitas das imagens que chegam ao ateliê foram limpas antes por pessoas não especializadas, com a melhor das intenções, e chegam com danos causados por essa limpeza. Um pano úmido que levou junto a carnação do rosto, um algodão com álcool que apagou o dourado do manto, uma demão de tinta para "dar uma renovada". Nenhum desses danos tem volta simples.
O que pode e o que não pode na limpeza de imagem de santo
Em casa, só se tira o que está solto. Poeira solta sai com o pincel; o resto é trabalho de bancada.
Pode:
- pincel macio e seco, de cerdas naturais, do tipo usado para maquiagem ou pintura artística, reservado só para isso e com a parte metálica coberta por fita;
- luvas nitrílicas ou mãos bem lavadas e secas;
- segurar a imagem com uma mão sob a base e a outra apoiando o corpo, nunca pelas mãos, pela coroa ou pelo resplendor.
Não pode:
- água, mesmo um pano "só um pouquinho úmido";
- álcool, acetona, removedor, vinagre, alvejante ou qualquer produto de limpeza;
- soprador, secador de cabelo ou aspirador de pó, mesmo com bocal macio;
- lustra-móveis, óleo de peroba, cera ou silicone;
- palha de aço, esponja, escova de dente ou qualquer coisa que arranhe;
- tinta, verniz ou "retoque" para disfarçar uma falha;
- cola instantânea em partes quebradas.
Por que água e álcool estragam a imagem
Uma imagem antiga em madeira é feita em camadas. Sobre a madeira vai uma base de preparação feita de carga mineral, como o carbonato de cálcio, ligada com cola animal; sobre ela, a pintura, que nas imagens sacras chamamos de policromia; nas áreas douradas, uma folha de ouro finíssima. Essa preparação é sensível à água, e o douramento tradicional a água, assentado sobre bolo, mais ainda: umedecidos, amolecem e se soltam junto com a pintura. Nas imagens de gesso, a água mancha e desagrega o próprio gesso.
O álcool age de outro modo: pode dissolver vernizes e repinturas, e numa imagem que já passou por repinturas não há como saber, em casa, qual camada vai sair primeiro. O que parece sujeira saindo no algodão, muitas vezes, é a própria pintura.
A fuligem de vela é o caso clássico. Ela gruda na superfície, escurece o rosto e o dourado e não sai com o pincel. O erro comum é esfregar. Fuligem aderida se remove em ateliê, com testes em pontos pequenos antes de qualquer limpeza.
Soprador e aspirador parecem inofensivos porque não encostam na peça, mas são os que mais enganam. Numa imagem antiga, a pintura e a preparação de carbonato de cálcio por baixo dela costumam ter pequenas áreas soltas que não se veem a olho nu. O jato de ar ou a sucção arrancam esses fragmentos, e o que se perde ali não volta: a pintura original daquela área deixa de existir.
Como limpar imagem de santo em casa, passo a passo
1. Olhe antes de tocar
Com boa luz, gire a imagem devagar e procure tinta levantada em escamas, rachaduras, partes soltas e furinhos na madeira. Se encontrar qualquer um desses sinais, pare aqui e pule para a seção seguinte.
2. Prepare o lugar
Use uma mesa forrada com toalha ou espuma e trabalhe longe da beirada. É na limpeza que muitas quedas acontecem.
3. Tire a poeira com pincel seco
Comece pela cabeça e desça, com toques leves, sem esfregar. Nas dobras e reentrâncias, use a ponta do pincel, com ainda mais delicadeza. Não insista em nenhum ponto: o que não sai com o pincel não é poeira solta.
4. Cuide do lugar onde ela fica
O melhor cuidado é prevenir. Longe de vela acesa, de sol direto e de parede úmida, ela suja menos e envelhece mais devagar.

Quando a imagem de santo precisa de restaurador, e não de limpeza
Alguns sinais mostram que o problema já não é sujeira:
- Tinta levantando ou descascando em escamas. Qualquer pincel pode arrancar o que está solto. Antes de limpar, o restaurador fixa a pintura.
- Pó fino ou grânulos perto de furinhos na madeira. É sinal de insetos xilófagos, como brocas e cupins, que trabalham por dentro. Não aplique inseticida: feche a peça num saco plástico até a avaliação. Na imagem do Cristo da Matriz de Ubatuba, o ataque exigiu desinfestação antes de qualquer tratamento da pintura.
- Rachaduras, partes soltas ou dedos quebrados. Guarde os fragmentos em um envelope de papel e não cole.
- Dourado escurecido ou descolando. Folha de ouro solta não se limpa: primeiro é fixada.
- Manchas de mofo ou sujeira grudada que não sai com o pincel. No mofo, não escove: isso espalha os esporos.
Posso repintar a imagem do meu santo?
Repintura não é restauro. Cada demão de tinta cobre a pintura que havia embaixo, e com ela vai o rosto que a família ou a comunidade conhece. Imagens repintadas várias vezes são o caso mais comum que recebemos. Muitas vezes a pintura original continua lá embaixo, preservada. Ela é identificada por sondagens e, quando o exame justifica, recuperada com a remoção das repinturas por etapas, só onde há original por baixo. Depois de uma repintura caseira, esse trabalho fica mais demorado e mais caro.

Na dúvida, não pinte. Uma imagem com a pintura gasta, porém original, vale mais do que uma imagem nova por cima de uma antiga.
O que fazer com uma imagem de santo que você não quer mais
Se a imagem está danificada, vale primeiro saber se ela pode ser restaurada; muitas famílias desistem de uma peça que tem conserto. Se a decisão for mesmo se desfazer dela, o caminho mais comum entre católicos é conversar com o pároco da sua comunidade, que orienta sobre doação a uma igreja, capela ou outra família, ou sobre o destino adequado para um objeto bento. Evite jogar no lixo.
Perguntas frequentes sobre limpeza de imagem de santo
Posso lavar uma imagem de santo de gesso?
Não. O gesso é poroso e absorve a água, que mancha e desagrega a superfície e amolece a pintura. Mesmo uma imagem de gesso sem valor de mercado pode ficar marcada por uma lavagem. Para a poeira, use só pincel macio e seco, segurando a peça pela base.
Como tirar fuligem de vela de uma imagem de santo?
Em casa, não tire. A fuligem gruda na pintura e no dourado, e esfregar com pano, água ou álcool costuma levar a pintura junto. A remoção é feita em ateliê, com testes em áreas pequenas para escolher o método que limpa sem atingir a camada original.
Posso passar verniz para deixar a imagem brilhando?
Não é recomendável. O verniz comum amarela com o tempo, retém sujeira e, mais tarde, precisa ser removido com solventes, o que expõe a pintura a um novo risco. Uma imagem limpa e bem guardada não precisa de brilho artificial.
Quanto custa restaurar uma imagem de santo?
A maior parte das imagens de pequeno e médio porte se resolve entre R$ 1.000 e R$ 3.000, e dificilmente passa de R$ 5.000. O valor fechado depende do diagnóstico. Veja como funciona na página de restauração de imagens sacras.
Sua imagem tem algum desses sinais? Fotografe frente, verso, base, rosto e detalhe dos danos, com luz natural e sem flash, e envie para uma leitura preliminar gratuita. Na resposta, dizemos se ela precisa de restauro ou só de cuidado.
Texto de Clayton Caner, arquiteto e restaurador da CANERSTUDIO. O restauro começa no olhar.