Projetos de Restauração

Cristo em madeira policromada da Igreja Matriz de Ubatuba antes da restauração
Estado de conservação da imagem de Cristo da Matriz de Ubatuba
Detalhe da policromia danificada na escultura de Cristo
Perdas na camada policroma da imagem sacra em madeira
Análise diagnóstica da escultura de Cristo antes da intervenção
Consolidação da madeira da imagem sacra
Tratamento de fissuras na escultura de Cristo em madeira
Limpeza da superfície policromada da imagem
Reintegração estética da policromia do Cristo de Ubatuba
Detalhe da reintegração cromática na imagem sacra
Visita do frei Bruno ao ateliê durante a restauração de arte sacra
Acompanhamento do restauro da imagem pela paróquia
Detalhe do rosto do Cristo após a restauração
Imagem de Cristo em madeira policromada após a restauração de arte sacra
Cristo restaurado de volta à Igreja Matriz de Ubatuba
Antes e depois da restauração do Cristo da Matriz de Ubatuba

Restauração de Arte Sacra: o Cristo da Igreja Matriz de Ubatuba

A restauração de arte sacra deste Cristo em madeira policromada, da Igreja Matriz de Ubatuba, começou por um problema de estrutura: a escultura estava gravemente deteriorada por ataque de insetos xilófagos. Desmontamos a peça, fizemos a desinfestação e a estabilização da madeira, recompusemos as partes e a policromia e terminamos com douramento e verniz de proteção.

Os xilófagos estão entre as ameaças mais sérias para uma escultura de madeira justamente porque trabalham por dentro. A superfície pode continuar parecendo inteira enquanto a estrutura já cedeu. E este Cristo não é peça de museu: pertence a uma igreja matriz.

Diagnóstico: arte sacra em madeira atacada por xilófagos

O ataque de insetos foi o dano que definiu todo o resto do trabalho. As larvas se alimentam da madeira quase até a superfície; em infestações intensas, como descreve o manual de conservação de madeira de Unger, Schniewind e Unger, resta apenas uma fina camada superficial. Por fora, alguns furos. Por dentro, galerias e pó.

Há outro complicador. O ciclo desses insetos é oculto, e por isso não basta ver furos para saber se o ataque continua. Furos antigos costumam ter a borda acinzentada pela poeira; atividade recente se reconhece por pó fresco e borda clara. Antes de tratar, é preciso saber o que se está tratando.

Como foi feita a restauração do Cristo

Nessa obra, a ordem das etapas não era negociável: antes de qualquer cor, a madeira. Pintar ou dourar uma peça que continua sendo comida por dentro é gastar trabalho numa superfície sem chão.

Análise e desmontagem

O trabalho começou pela avaliação dos danos e pela desmontagem cuidadosa da escultura. Separar as partes permite ver encaixes e áreas internas que, com a peça montada, ficam fora de alcance, e tratar cada uma conforme o estado em que se encontra.

Desinfestação e estabilização da madeira

Em seguida, a madeira passou por desinfestação e estabilização. O objetivo é duplo: interromper o ataque e devolver à madeira a capacidade de sustentar a escultura. A escolha do método depende da peça. Já em 2001 a literatura técnica apontava os métodos físicos e as atmosferas sem oxigênio como mais adequados para bens culturais do que os produtos líquidos, que deixam resíduos e podem atacar a preparação, o douramento e os pigmentos.

Recomposição das partes e da policromia

Com a estrutura firme, as partes foram recompostas e a camada de pintura foi recuperada com pigmentos compatíveis com os originais. Numa imagem de culto, a policromia é o que a comunidade reconhece como "o Cristo dela": o tom da carnação, o desenho do rosto, as vestes.

Douramento e proteção final

Por último, aplicamos folha de ouro e a camada final de verniz de proteção. O verniz protege, mas também envelhece, e poderá ser renovado por outro restaurador no futuro sem prejuízo para a imagem.

Uma imagem de culto não se restaura como peça de museu

O critério que orientou este trabalho vem da teoria contemporânea do restauro. A teoria clássica, a de Cesare Brandi, foi pensada sobretudo para obras de museu, onde o valor histórico e o estético decidem quase tudo. Quem trabalha com arte sacra em uso sabe que uma imagem de devoção tem também um valor espiritual, e que ele conta.

O espanhol Salvador Muñoz Viñas formulou o dilema com precisão: "a intervenção mínima necessária para tornar uma escultura apta ao culto religioso pode ser muito diferente da intervenção mínima necessária para preservar seu valor documental". Um Cristo que volta para a igreja precisa ser lido inteiro pelos fiéis. Por isso, numa imagem em uso, o grau de reintegração da pintura e do ouro é decidido com quem cuida dela.

O que não muda, em nenhum caso, é o registro. Fica documentado o que é original e o que é intervenção, para que quem vier depois saiba exatamente onde entramos.

O que a restauração devolveu ao Cristo de Ubatuba

Não uma imagem nova. Uma imagem firme outra vez, com a madeira estabilizada e a policromia legível, pronta para continuar presente para a comunidade de Ubatuba. As marcas de uso que fazem parte da história de uma imagem de devoção não são defeitos a apagar.

Nenhum tratamento contra insetos impede um novo ataque. O que protege a imagem daqui para frente é o ambiente: umidade sob controle, inspeção periódica e atenção a qualquer pó fino ou furo novo na madeira.

Ficha técnica

  • Obra: Cristo
  • Técnica: escultura em madeira policromada
  • Local: Igreja Matriz de Ubatuba (SP)
  • Diagnóstico: deterioração grave por ataque de insetos xilófagos, com comprometimento da madeira e da policromia
  • Procedimentos: análise e desmontagem, desinfestação e estabilização da madeira, recomposição das partes, recuperação da policromia com pigmentos compatíveis, aplicação de folha de ouro, verniz de proteção

Perguntas frequentes sobre restauração de arte sacra

Como saber se o cupim ou o caruncho de uma imagem ainda está ativo?

Furos sozinhos não dizem muito. Furos antigos tendem a ter borda cinzenta, coberta de poeira; atividade recente costuma deixar pó claro e fresco perto dos furos e bordas limpas. Como o inseto vive dentro da madeira, a confirmação exige exame atento e, às vezes, um período de observação. Só depois disso se escolhe o tratamento.

Quem decide como a imagem da igreja vai ficar depois do restauro?

A decisão é compartilhada. O restaurador apresenta o diagnóstico, as alternativas e o que cada uma preserva ou sacrifica; a paróquia ou a irmandade diz o que a imagem significa para a comunidade. Questões técnicas, como materiais e métodos, cabem ao restaurador. O grau de reintegração é combinado e fica registrado.

Depois de desinfestada, a madeira fica protegida para sempre?

Não. Os tratamentos de desinfestação eliminam o ataque presente, mas não impedem que novos insetos cheguem. O que reduz o risco é o ambiente: umidade controlada, limpeza, ventilação e inspeção periódica da peça e do mobiliário de madeira ao redor, que pode abrigar focos.

Se a sua paróquia tem uma imagem com furos, pó ou partes soltas, o primeiro passo é um diagnóstico. O restauro começa no olhar.

Texto de Clayton Caner, arquiteto e restaurador da CANERSTUDIO.

Este trabalho faz parte do serviço de restauração de imagens sacras e arte sacra.

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