Restauração de Quadros Antigos: retrato de Jurandyr Ubirajara Campos
O dano mais sério deste retrato de Jurandyr Ubirajara Campos, um óleo sobre tela de 40 x 50 cm, não veio do tempo. Veio de um restauro anterior: uma reentelagem com mylar que travava o tecido original e fazia a tinta escamar. Retiramos essa reentelagem, fizemos outra em mesa de calor a vácuo, fixamos a camada pictórica e removemos repinturas.
Em restauração de quadros antigos, essa história é comum. Um quadro antigo raramente chega ao ateliê pela primeira vez, e nem todas as mãos anteriores acertaram. Um restauro mal feito costuma dar mais trabalho que o próprio tempo.
Diagnóstico: quando o problema do quadro antigo é o restauro anterior
O que fazia a tinta escamar era a reentelagem antiga. Reentelar é colar uma tela nova no verso da original para reforçá-la. Neste quadro, alguém tinha colocado uma película de mylar, um filme plástico, entre a tela original e o tecido de reforço. A película impedia o tecido original de se movimentar com naturalidade. Uma tela pintada responde o tempo todo à umidade e à temperatura; presa daquele jeito, transferia a tensão para a tinta, que passou a se soltar em escamas.
Os outros danos vinham na mesma direção. A camada pictórica estava comprometida em algumas áreas, com perdas importantes e craquelamentos. Havia ainda repinturas, tinta aplicada em intervenções anteriores sobre a pintura do artista.
Como foi feita a restauração do quadro antigo
Retirada da reentelagem com mylar
A primeira etapa foi desfazer o restauro anterior. Exige paciência: cada ponto em que a cola resiste é um ponto em que a tinta pode se soltar.
Nova reentelagem e fixação da camada pictórica na mesa de calor a vácuo
A reentelagem antiga foi substituída por outra, executada em mesa de calor a vácuo. A mesma mesa serviu para fixar a camada pictórica: o calor controlado e a pressão uniforme do vácuo devolvem aderência à tinta que escamava, sem pressionar pontos isolados.
Retirada de repinturas, limpeza e extração de verniz
Com a pintura estável, removemos as repinturas e fizemos a limpeza e a extração do verniz. Repintura e verniz saem aos poucos, com testes em áreas pequenas, porque o limite entre o que é acréscimo e o que é do pintor nem sempre é evidente.
Nivelamento, retoque e verniz de proteção
As partes faltantes foram niveladas com massa e retocadas. Uma camada de verniz adequado fecha o trabalho na tela.
Moldura
A moldura foi limpa mantendo suas características originais, teve as trincas fechadas e recebeu reintegração com retoques.
O critério: nenhuma intervenção pode impedir a próxima
Este quadro mostra por que a teoria do restauro insiste tanto num ponto. Cesare Brandi defendia que nenhuma intervenção deve tornar impossíveis as futuras; a teoria contemporânea chama isso de retratabilidade. A reentelagem com mylar falhou exatamente aí: resolveu um problema e criou outro, mais difícil de desfazer.
O manual de Unger, Schniewind e Unger tem uma frase que todo restaurador deveria levar a sério: "há exemplos demais de casos em que a aplicação, com as melhores intenções, de materiais e métodos de conservação resultou numa piora perceptível do estado dos objetos tratados com o passar do tempo". Por isso escolhemos materiais que outro restaurador, no futuro, possa remover. Nenhuma restauração é definitiva, e a nossa também não.
O que a restauração devolveu ao retrato
Uma tela que volta a trabalhar com o tecido de reforço, e não contra ele. A tinta deixou de escamar, as repinturas saíram e as perdas foram integradas à leitura. O retrato continua com a idade que tem, agora sem carregar o erro de quem mexeu nele antes.
Jurandyr Ubirajara Campos, do desenho comercial à pintura
Jurandyr Ubirajara Campos nasceu em São Paulo, em 1912, e morreu na mesma cidade, em 1972. Começou como desenhista comercial, quando sugeriu à casa de máquinas de lavoura em que trabalhava um desenho para a publicidade da empresa. Em 1928 foi para Nova York, onde trabalhou como desenhista e propagandista do The New York Times.
De volta ao Brasil, trabalhou na seção de rotogravura de O Estado de S. Paulo e ilustrou livros infantis de Monteiro Lobato, seu sogro. A partir da década de 1940 dedicou-se às artes plásticas e estudou com Cesáreo Bernaldo de Quirós, em Buenos Aires, em 1947. Em 1950 tornou-se presidente do Salão Paulista de Belas Artes.
Ficha técnica
- Obra: Retrato (Acadêmico)
- Autor: Jurandyr Ubirajara Campos
- Técnica: óleo sobre tela
- Medidas: 40 x 50 cm
- Diagnóstico: camada pictórica comprometida em algumas áreas, perdas importantes, craquelamentos, reentelagem anterior inadequada com mylar entre a tela e o tecido original, escamação da tinta, repinturas
- Procedimentos (tela): retirada da reentelagem anterior, nova reentelagem em mesa de calor a vácuo, fixação da camada pictórica, retirada de repinturas, limpeza e extração de verniz, nivelamento e retoque das partes faltantes, verniz de proteção
- Procedimentos (moldura): limpeza mantendo as características originais, fechamento das trincas, reintegração com retoques
Perguntas frequentes sobre restauração de quadros antigos
Um restauro antigo mal feito pode ser desfeito?
Na maioria dos casos, sim, mas com risco e trabalho. Reentelagens, repinturas e massas antigas podem ser removidas, desde que o diagnóstico mostre que a remoção é segura para a pintura. Algumas intervenções antigas estáveis são mantidas, porque também fazem parte da história da obra. A decisão é tomada caso a caso.
Uma reentelagem antiga precisa sempre ser retirada?
Não. Se está estável e não prejudica a pintura, uma reentelagem antiga passa a fazer parte da história do quadro e pode ser mantida, porque retirá-la também tem riscos. Ela é substituída quando causa dano, como neste retrato, em que o mylar travava o tecido original e fazia a tinta escamar.
Como saber se um quadro já foi restaurado antes?
Alguns sinais aparecem a olho nu: uma segunda tela colada no verso, remendos, áreas de cor ou brilho diferentes do restante. Outros só surgem no exame, com luz rasante ou ultravioleta, que revelam massas e retoques antigos. Saber o que já foi feito é parte essencial do diagnóstico.
O que são repinturas?
São camadas de tinta aplicadas sobre a pintura em intervenções posteriores, para cobrir danos ou "atualizar" a imagem. Muitas vezes escondem áreas do original. Algumas são removidas; outras, antigas e estáveis, podem ser mantidas como parte da história do quadro. Só o exame da obra permite decidir.
Se o seu quadro antigo já foi restaurado e voltou a dar problema, comece por um diagnóstico. O restauro começa no olhar.
Texto de Clayton Caner, arquiteto e restaurador da CANERSTUDIO.
Este trabalho faz parte do serviço de restauração de quadros e pinturas.
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