Restauração de Quadro Cusquenho: Sagrada Família, século XVII
A restauração deste quadro cusquenho, uma Sagrada Família do século XVII de autor desconhecido, óleo sobre tela de 100 x 148 cm, teve de lidar com o que outras mãos fizeram antes: uma reentelagem à cera e repinturas em várias áreas, que deixaram deformidades. Havia ainda tinta se destacando, marcas de dobra e um chassi inadequado, substituído por um novo em cedro.
Esta Sagrada Família foi pintada nos Andes, para ensinar a fé com imagens, e atravessou mais de três séculos. No caminho ganhou cera no verso, tinta de outras mãos na frente e um chassi que não era o seu. Parte do dano não era envelhecimento. Era restauro antigo.
Diagnóstico do quadro cusquenho: o tempo e as intervenções anteriores
O exame encontrou dois tipos de problema: os do tempo e os de intervenções anteriores.
Do tempo e do uso vieram sujidades, verniz oxidado, ataque de insetos xilófagos, rasgos no tecido e perdas de camada pictórica. A pintura tinha comprometimento importante, com destacamento em algumas áreas. Havia marcas de dobras, ocorridas provavelmente durante um transporte. A moldura apresentava rachaduras em alguns pontos.
Das intervenções anteriores vieram a reentelagem à cera, as repinturas e as deformidades que elas causaram. A reentelagem com cera e resina foi muito usada até os anos 1970. O tempo mostrou seus efeitos: a cera impregna o tecido e a preparação, pode alterar a cor da pintura e provocar deformações.
O chassi, de madeira e tamanho inadequados, não dava à tela o apoio de que ela precisava.
O restauro da estrutura do quadro cusquenho
Numa tela de 100 x 148 cm, o chassi é o que decide se a pintura vai se manter plana ou voltar a deformar. Por isso ele foi a decisão estrutural central deste restauro.
Chassi novo em cedro, com cruzetas e cunhas
O chassi antigo foi substituído por um novo, em cedro, com cruzetas e cunhas. As cruzetas são as travessas internas que dão rigidez ao quadro grande e impedem que ele torça. As cunhas, encaixadas nos cantos, permitem ajustar a tensão da tela quando o tecido ceder, sem desmontar a obra. É esse movimento controlado que evita nova deformação.
A estrutura vem antes da superfície. Uma pintura de três séculos montada sobre um suporte errado vai continuar sofrendo, por melhor que seja o tratamento da camada pictórica.
Repinturas antigas: o que é história, o que é dano
Uma obra tão antiga pede uma pergunta antes de cada gesto: o que foi acrescentado faz parte da sua história ou desfigura o que o pintor fez?
O restaurador inglês David Bomford descreve o que se espera de um profissional diante dessa dúvida: os restauradores experientes "sabem quando é prudente manter repinturas antigas e quando é imprudente levar longe demais a limpeza de uma área danificada". Uma repintura antiga pode ser testemunho de devoção ou do gosto de uma época; pode também cobrir a pintura original.
Nesta Sagrada Família, as intervenções anteriores já tinham deixado marcas físicas, as deformidades registradas no diagnóstico. É esse o ponto em que um acréscimo deixa de ser apenas história e passa a ser dano. A decisão sobre cada área repintada se toma a partir de exame, com registro do que se remove e do que se mantém.
O que a nova estrutura garante
A pintura passou a ter um suporte à altura da sua idade: madeira nobre, dimensão correta e cunhas que acompanham os movimentos naturais da tela. Isso não apaga sua história; garante que a obra deixe de se deformar por causa do próprio chassi.
O que é a pintura cusquenha
A pintura cusquenha nasceu depois da conquista espanhola de Cuzco, nos anos 1530, como arte eclesiástica e didática: imagem e palavra juntas para ensinar a doutrina católica. A Espanha enviou religiosos artistas para criar obras doutrinárias, e deles se formaram escolas de pintores indígenas e mestiços, treinados no desenho e na pintura a óleo.
O nome vem de Cuzco, antiga capital do Império Inca. A escola cusquenha costuma ser considerada o primeiro centro pictórico organizado do chamado Novo Mundo, e obras do mesmo tipo foram produzidas também no Equador e na Bolívia, entre os séculos XVI e XVIII.
As pinturas misturam a influência europeia com elementos locais. Os temas são religiosos (santos, anjos, cenas bíblicas), e não é raro encontrar animais da região e símbolos indígenas entre as figuras. Duas marcas técnicas chamam atenção: a aplicação de folhas de ouro e de prata, que representam a luz divina, e as veladuras, camadas finas e translúcidas de tinta que constroem sombra e profundidade.
Ficha técnica
- Obra: Sagrada Família
- Autor: desconhecido (escola cusquenha)
- Data: século XVII
- Técnica: óleo sobre tela
- Medidas: 100 x 148 cm
- Diagnóstico: sujidades, xilófagos, verniz oxidado, rasgos no tecido, perda de camada pictórica com destacamento em algumas áreas, marcas de dobras, deformidades causadas por reentelagem à cera e repinturas anteriores, moldura com rachaduras, chassi de madeira e tamanho inadequados
- Procedimentos: substituição do chassi por um novo em cedro, com cruzetas e cunhas
Perguntas frequentes sobre restauração de quadro cusquenho
Como saber se um quadro é cusquenho?
Temas religiosos, ouro aplicado sobre a pintura, veladuras e figuras com elementos andinos sugerem a escola, mas não bastam. A atribuição depende de exame da técnica, dos materiais, do suporte e da história da peça. O diagnóstico de restauro ajuda a reunir essas evidências, sem prometer conclusão antes do exame.
O que é reentelagem à cera e por que ela pode ser um problema?
É uma reentelagem em que a tela nova é colada ao verso da original com uma mistura de cera e resina. Foi muito usada até os anos 1970. Com o tempo, percebeu-se que a cera impregna o tecido e a preparação, pode escurecer a pintura e causar deformações. Retirá-la também tem riscos, por isso a decisão depende do estado de cada obra.
Vale a pena trocar o chassi de um quadro antigo?
Quando o chassi é inadequado, frágil ou atacado por insetos, a troca protege a pintura. Mas um chassi antigo pode ser documento da obra, com marcas, etiquetas e inscrições. Antes de substituir, é preciso avaliar o que ele carrega de informação e registrar tudo.
Se você tem uma pintura colonial ou cusquenha que já passou por restauros anteriores, o primeiro passo é entender o que é original e o que veio depois. O restauro começa no olhar.
Texto de Clayton Caner, arquiteto e restaurador da CANERSTUDIO.
Este trabalho faz parte do serviço de restauração de quadros e pinturas.
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