Projetos de Restauração

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Restauração de Quadros: retrato de 1901 de Oscar Pereira da Silva

Em 1901, Oscar Pereira da Silva pintou este retrato acadêmico, um óleo sobre tela de 40 x 50 cm. Chegou para restauração com perdas importantes de tinta, craquelamentos, verniz oxidado, tecido sujo e chassi atacado por insetos xilófagos. Fixamos a camada pictórica em mesa térmica a vácuo, limpamos, trocamos o chassi e tratamos a moldura.

Repetimos sempre a quem nos procura: nem todo quadro precisa ser restaurado. Há obras que valem justamente pela idade que mostram, e restauro em excesso tira delas autenticidade. Este retrato não era um desses casos. A tinta estava se soltando, e o chassi estava sendo comido por dentro.

Diagnóstico: o que pedia restauração neste quadro

Dois problemas tinham urgência: a camada pictórica comprometida e o chassi infestado. A pintura apresentava perdas importantes e craquelamentos, e uma tinta nesse estado continua se desprendendo a cada variação de umidade ou manuseio. O chassi, a armação de madeira que mantém a tela esticada, sofria ataque de xilófagos, insetos que se alimentam da madeira por dentro.

Os outros danos eram de superfície: verniz oxidado, que escurece e amarela as cores, e sujidade acumulada no tecido da tela.

Como foi feita a restauração do quadro

Fixação da camada pictórica em mesa térmica a vácuo

A primeira etapa foi devolver aderência à tinta que se soltava. A mesa térmica a vácuo combina calor controlado e pressão uniforme sobre toda a superfície, o que permite fixar a camada pictórica sem forçar pontos isolados.

Limpeza do tecido por mapeamento

O tecido foi limpo a partir de um mapeamento da tela.

Limpeza e extração do verniz oxidado

Depois veio a remoção do verniz envelhecido. É a etapa em que mais se decide: o que sai não volta, e por isso os solventes são testados antes em áreas pequenas.

Nivelamento, retoque e verniz de proteção

As partes faltantes foram niveladas com massa e retocadas, cobrindo a perda e só a perda. Uma camada de verniz adequado protege agora a pintura.

Novo chassi de cedro com cunhas

O chassi antigo foi substituído por um chassi de cedro com cunhas. As cunhas permitem ajustar a tensão da tela ao longo dos anos, sem desmontar o quadro.

Moldura: limpeza, trincas, retoques e douração

A moldura foi limpa mantendo suas características, teve as trincas fechadas, recebeu reintegração com retoques e, por fim, douração.

Por que trocar o chassi e conservar a moldura

Trocar um chassi atacado por xilófagos é decisão fácil. Ele é estrutura, não imagem, e um suporte comprometido põe em risco a pintura inteira. A moldura pede outra conversa: é parte da história do quadro e da forma como ele foi visto. Por isso foi tratada, e não trocada.

O manual de conservação de madeira de Unger, Schniewind e Unger resume o critério que usamos nas duas decisões: "todo tratamento deve basear-se na premissa 'tão pouco quanto possível, tanto quanto necessário'". No chassi, o necessário era substituir. Na moldura, o possível era conservar.

O que a restauração devolveu ao retrato

Uma pintura firme sobre um suporte sadio, com as cores livres do verniz escurecido e as perdas integradas à leitura. O retrato continua com a idade que tem. O que deixou de existir foi o risco de perder tinta e madeira.

Oscar Pereira da Silva, pintor acadêmico

Oscar Pereira da Silva nasceu em São Fidélis (RJ), em 1867, e morreu em São Paulo, em 1939. Estudou na Academia Imperial de Belas Artes entre 1882 e 1887, aluno de Zeferino da Costa, Victor Meirelles, Chaves Pinheiro e José Maria de Medeiros. Em 1887 foi ajudante de Zeferino da Costa na decoração da Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro.

Conquistou o último prêmio de viagem ao exterior concedido por dom Pedro II e seguiu para Paris em 1889, onde estudou com Léon Bonnat e Jean-Léon Gérôme. Voltou ao Brasil em 1896 e expôs 33 trabalhos feitos na Europa na Escola Nacional de Belas Artes. Em São Paulo, lecionou no Liceu de Artes e Ofícios e no Ginásio do Estado, fundou em 1897 o Núcleo Artístico, que depois se tornou a Escola de Belas Artes, pintou entre 1903 e 1911 três murais para o Theatro Municipal (O Teatro na Grécia Antiga, A Dança e A Música) e, entre 1907 e 1917, obras para a Igreja de Santa Cecília.

Ficha técnica

  • Obra: Retrato (Acadêmico), 1901
  • Autor: Oscar Pereira da Silva
  • Técnica: óleo sobre tela
  • Medidas: 40 x 50 cm
  • Equipe: restauro realizado com Nirceu Helena e Barbara Zmekhol
  • Diagnóstico: camada pictórica comprometida, perdas importantes, craquelamentos, verniz oxidado, sujidade no tecido, chassi atacado por insetos xilófagos
  • Procedimentos: fixação da camada pictórica em mesa térmica a vácuo, limpeza do tecido por mapeamento, limpeza e extração de verniz, nivelamento e retoque das partes faltantes, verniz de proteção, substituição do chassi por chassi de cedro com cunhas, limpeza da moldura mantendo suas características, fechamento das trincas, reintegração com retoques, douração da moldura

Perguntas frequentes sobre restauração de quadros

Todo quadro antigo precisa de restauração?

Não. Escurecimento leve, craquelê estável e marcas de idade não são, por si, motivo para restaurar. A restauração se justifica quando há risco à obra, como tinta se soltando, rasgos, ataque de insetos ou suporte instável, ou quando a leitura da imagem está de fato comprometida. Às vezes uma boa conservação, com ambiente e manuseio adequados, basta.

Restaurar um quadro diminui o valor dele?

Uma restauração bem feita e documentada protege o valor da obra, porque interrompe danos que só aumentariam. O que prejudica é o excesso: repinturas, limpezas agressivas, retoques que cobrem o original. Restauro em excesso afeta a autenticidade, e a autenticidade pesa no valor histórico e de mercado.

Para que servem as cunhas do chassi?

São pequenas peças de madeira encaixadas nos cantos do chassi. Ajustadas com cuidado, afastam levemente as barras e devolvem tensão à tela quando ela afrouxa com as variações de umidade. Permitem corrigir a tensão ao longo dos anos sem desmontar o quadro nem retirar a tela.

A moldura também é restaurada?

Pode ser. Molduras antigas costumam fazer parte da história do quadro e merecem o mesmo cuidado: limpeza, fechamento de trincas, reintegração de perdas e, quando o caso pede, douração. A decisão de conservar ou substituir uma moldura é tomada com o proprietário, depois do diagnóstico.

Se você tem um quadro que está perdendo tinta ou com o chassi comprometido, comece por um diagnóstico. Preserve a obra sem apagar a sua história.

Texto de Clayton Caner, arquiteto e restaurador da CANERSTUDIO.

Este trabalho faz parte do serviço de restauração de quadros e pinturas.

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